quarta-feira, junho 13, 2007

Bourdoukan e seu anti-semitismo vestido de anti-sionismo

Transcrição do excelente email de Daniel Golovaty sobre as sandices de Bourdoukan:


"Recebi, há poucos dias, um e-mail de um conhecido que me retransmitia conteúdo do blog do famigerado Bourdoukan. Tratava-se de mais um ataque ao Sobel, onde era sugerido a este que fosse fazer seu trabalho comunitário em Gaza, a terrra do 'palestino' Jesus Cristo, transformada pelos israelenses em um grande 'campo de concentração'. O tema do 'Cristo palestino' martirizado pelos judeus não me era estranho, pois se trata de conhecida peça da retórica anti-sionista, onde esta, aliás, adquire uma relação direta e sem subterfúgios com um tema do anti-semitismo clássico. Tambouco me surpreendeu que isto aparecesse em um texto do Bourdoukan, de modo que a resposta que dei resumui-se em uma pergunta: 'qual a utilidade de propagar este lixo?' Para minha surpresa, este meu conhecido respondeu ponderando que, apesar do fato de que achava que o Bourdoukan costumava falar bobagens, ele seria um dos 'poucos' que defende os palestinos, e por isso seria merecedor de respeito. Minha resposta a isto segue abaixo ( o nome do meu correspondente foi substituído por X ):


Caro X,

Para mim é extremamente desagradável ter que ficar argumentando em torno de algo que considero mais do que óbvio. Em todo caso, como você é uma pessoa pela qual tenho consideração, resolvi tampar o nariz e dar-me ao trabalho de comentar a porcaria produzida pelo sr. Bourdoukan.

Em primeiro lugar, você disse que ele seria um dos poucos no Brasil a defender os palestinos. Se isso for verdade, então acho que devemos estar vivendo em mundos completamente diferentes. Isto porque, independentemente de seus êxitos e fracassos, penso que os palestinos já podem entrar para o Guiness como tendo o movimento nacional com mais apoio e simpatias em nível global de toda a história da humanidade. Outros povos oprimidos, tanto no passado recente como no presente, tais como os tibetanos, os curdos, os sudaneses de Darfur, os tchetchenos, etc., embora tenham sido vítimas de uma violência incomparavelmente maior do que os palestinos, jamais gozaram sequer de uma fração da simpatia e do apoio internacionais de que desfrutam estes últimos. Isto é ainda mais verdade em países do terceiro mundo, como o Brasil, onde defender os palestinos e condenar Israel já virou consenso de mesa de bar.

Agora, se você acha que a preocupação de gente como este Bourdoukan é realmente com os palestinos, me desculpe, mas então não é apenas o seu olfato que se encontra embotado – afinal, para saber que é lixo, basta cheirar -, mas também a tua visão. Sempre houve anti-semitas obcecados em rastrear judeus que praticam desvios de conduta, infrações ou crimes, com o objetivo de atacar o povo judeu. Esta é uma constante do comportamento anti-semita, como também é uma constante a existência de figuras do nosso povo que se empenham em justificar este procedimento culpando a si mesmos: “afinal, se um dos nossos realmente praticou este ato lamentável, então não podemos nos queixar de ser atacados, pois demos motivo”... A isto se costuma - aliás, com toda razão - chamar de auto-ódio. Dizer que o que move este Bourdoukan é o interesse na defesa dos palestinos é exatamente o mesmo do que acreditar que o anti-semita que acusa os judeus de parasitas especuladores, provocadores de guerras e corruptores de virgens o faça imbuído dos mais salutares interesses pela integridade da economia da pátria, pela paz mundial ou pela castidade das mocinhas indefesas.

É mais do que óbvio que o que move este teratológico sr. Bourdoukan não tem nada que ver com o que seria uma legítima solidariedade aos palestinos, mas sim com o ódio a Israel e ao povo judeu. Se não, como explicar o monte de mentiras e insanidades grotescas que este sr. repete ad nauseam na revista Caros Amigos? Como explicar sua obsessiva insistência na mentira negacionista, a la Garaudy, de que o sionismo e o nazismo são como “irmãos siameses”? E, mais ainda, de que os sionistas teriam sido “co-autores” dos campos de extermínio nazistas, num uso obsceno e repugnante, a mais não dar, do Holocausto com o fito de agredir os judeus ( ver artigo anexo, muito bem comentado por Luis Milman )? Como explicar a assimilação que este sr. faz entre a história de Israel a um complô de gângsteres arianos ( “israelianos” = governantes arianos de Israel ) e imperialistas para dominar os “árabes semitas”? Como explicar, já não a justificação, mas a verdadeira glorificação que este sujeito faz do assassinato de civis israelenses, através de uma retórica tão grosseira quanto piegas? Como explicar que não escreva uma linha sequer sobre povos oprimidos quando os opressores não são judeus, mas árabes e que, igualmente, se cale sobre o fato de que nos países árabes livros como Mein Kampf e Os Protocolos dos Sábios de Sião gozem atualmente do status de best sellers? Por que será que o nojento concurso de caricaturas sobre o Holocausto e a abjeta conferência negacionista patrocinadas pelo GOVERNO iraniano jamais mereceram sequer uma linha deste tão “indignando” e “sensível” sr. Bourdoukan? Por que se recusa a reconhecer o direito à existência de Israel, propugnando pela imposição de um inverossímil Estado binacional pós-Armageddon ( sobre a importância deste tópico no discurso anti-sionista, ver meu artigo em anexo )?

A resposta, meu caro X, é que para gente como este Bourdoukan, os palestinos servem apenas de uma muitíssimo bem vinda bucha de canhão, que os possibilita, a um só tempo, instrumentalizar e transfigurar o seu ódio aos judeus e a Israel. Para estes anti-sionistas, se a causa palestina não existisse ela teria que ser inventada! E a contraprova mais inequívoca – como se isto ainda fosse necessário – ocorre quando os ataques desta gente se direcionam para os judeus fora de Israel, tornando ainda mais escancarado o caráter de subterfúgio que o recurso ao sofrimento palestino possui em suas odiosas catilinárias. Você disse que achou “divertido” o caso das gravatas do Sobel, o qual não teria te afetado em nada. Pois eu achei triste. Mesmo nunca tendo grandes simpatias por ele, acho que ele tem uma história que merece algum respeito e, sobretudo, para mim não é nada agradável ver um ser humano se destruir desta forma. Em todo caso, como se costuma dizer, gosto não se discute. Mas você há de convir que ficar tripudiando e humilhando alguém que já está caído no chão não constitui exatamente uma prova de magnanimidade. Já fazer isto com o intuito de ressaltar sua condição de judeu para, ato contínuo, implicá-lo - e, através dele, os judeus enquanto povo – na opressão “nazista” dos palestinos é de uma perversidade tão atroz que deveria repugnar qualquer pessoa cujos sentidos ( inclusive aquele chamado de senso ético ) não se encontrem totalmente embotados. Em suma, que uso faz este Bourdoukan do caso Sobel? Pode-se resumir em uma frase: “seu judeu ladrão, vá fazer serviço comunitário em Gaza, onde seus compatriotas martirizam os palestinos assim como fizeram com o palestino Jesus Cristo!” E você, X, ainda divulga esta merda? Francamente!

X, para finalizar, eu gostaria de dizer que há muito que venho notando a sua imensa dificuldade de encarar o fato de que o anti-semitismo não apenas existe como vem se fortalecendo e diversificando, sob a capa do anti-sionismo e da pretensa solidariedade aos palestinos. Você se aferrou a uma tese dos anos 60 que sustentava o declínio até a virtual irrelevância do “ódio antigo”. Ocorre que esta tese, há pelo menos três décadas, vem sendo cabalmente desmentida pela história. Sobre o que te faz permanecer, contra os fatos, fiel a esta crença é algo a respeito do que não posso nem quero especular. Noto apenas que isto está te apartando do mais elementar bom senso, para não dizer do senso comum, a ponto de te levar a defender um pústula com este Bourdoukan. Toda vez que você se depara com uma manifestação escancarada de anti-semitismo, a qual não é mais passível de disfarce, você tende a minimizá-la como sendo apenas uma “bobagem”. Eis aí uma argumentação interessante: “o racismo é uma imbecilidade, uma insensatez. É desprovido de uma lógica que o torne credível e o possa sustentar. Portanto, não é relevante. Trata-se apenas de uma bobagem!” O problema com esse tipo de refutação ( na verdade, uma denegação ) aufklarer do racismo é que ela se “esquece” do fato de que foi esta “bobagem” a responsável pelas maiores monstruosidades de que a história humana tem notícia e de que a sua inconsistência e irracionalidade demonstraram ser, longe de uma fraqueza, a raiz mesma de sua força. Sobre isto, vale lembrar um comentário de Adorno:

“Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! (...) Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos.”


1 Comentários:

At 1:00 PM, Anonymous o anti-nazisionista disse...

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