Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Bibliografia sobre o Islã - Parte II da análise do livro de Ali Kamel

Continuando o artigo anterior, que demonstrou um dos erros crassos cometidos por Ali Kamel em seu livro "Sobre o Islã", vou colocar agora uma bibliografia básica e uma lista de sites de referência para as próximas discussões e artigos. Há muitas outras referências interessantes mas, conforme elas forem aparecendo como citações em outros artigos, eu as detalho.


Web Sites

A Guerra do Islã pela Dominação Mundial ; Os Sonhos Imperiais do Islã e A Rendição Perfeita - Artigos do grande historiador Efraim Karsh. Não podia deixá-lo de fora!!! Os artigos são fundamentais!

Jihad Watch - Mostra ao público o papel que a teologia e ideologia da Jihad continua exercendo no mundo moderno. Recomendo o texto Islam 101.

Dhimmi Watch - Mostra ao público o peso de ser um dhimmi (um não-muçulmano "protegido" dentro de países islâmicos). Noticia e demonstra que o status de cidadãos de segunda classe e de humilhação continua ainda hoje para quem não é muçulmano em terras islâmicas.

Dhimmitude e Dhimmi - Site da grande historiadora da dhimmitude clássica e moderna - Bat Ye'or.

Apóstatas do Islã - Site de ex-muçulmanos e seus motivos para deixarem a religião. São pessoas que correm graves riscos, pois o Islã é uma das religiões que possui como lei (um hadith) a pena de morte se uma pessoa que já foi muçulmana deixar de ser.

Coptas - Site dos coptas (uma seita cristão antiquíssima) que é discriminada pesadamente no mundo árabe. Suas demandas são literalmente apenas por direitos iguais que lhes são negados por não serem muçulmanos.

MEMRI - Melhor site para acompanhar os acontecimentos diários do Oriente Médio

Religião da Paz? - Um site pesado mas que mostra a crua realidade da jihad ainda em curso contra o mundo não islâmico.

Vítimas da Jihad - Site que busca a justiça pelas vítimas da Jihad no mundo.

CCEL sobre o Islã - O conceituado site CCEL (Christian Classics Ethereal Library) responde à pergunta: "O Islã é uma religião da paz?". Leia o texto. Já adianto que a resposta é um sonoro e claro não.

Anti-semitismo muçulmano ; Anti-semitismo islâmico ; O tratamento dado a judeus em países árabes e islâmicos - Sites que mostram as origens do fenômeno e sua propagação até os dias de hoje.

Livros

Efraim Karsh - Islamic Imperialism: A History

Efraim Karsh - Empires of the Sand

Bernard Lewis - A Crise do Islã

Bernard Lewis - Semitas e Anti-semitas

Bernard Lewis - O Oriente Médio

Bernard Lewis - O que deu errado no Oriente Médio?

Albert Hourani - Uma História dos Povos Árabes

Albert Hourani - O Pensamento Árabe na Era Liberal

Ibn Warraq - Defending the West: A Critique of Edward Said's Orientalism

Ibn Warraq - Why I Am Not a Muslim

Ibn Warraq - What the Koran Really Says: Language, Text, and Commentary

Robert Spencer - The Politically Incorrect Guide to Islam (and the Crusades)

Robert Spencer, Editor - The Myth of Islamic Tolerance: How Islamic Law Treats Non-Muslims

Robert Spencer - The Truth About Muhammad: Founder of the World's Most Intolerant Religion

Andrew Bostom - The Legacy of Jihad: Islamic Holy War and the Fate of Non-Muslims

Bat Ye'Or - Islam and Dhimmitude: Where Civilizations Collide

Bat Ye'Or - The Decline of Eastern Christianity Under Islam : From Jihad to Dhimmitude - Seventh-Twentieth Century

Bat Ye'Or - Eurabia: The Euro-Arab Axis

Ayaan Hirsi Ali - Infiel: A História de uma mulher que desafiou o Islã

Abraham Foxman - Nunca Mais? A Ameaça do Novo Anti-semitismo

Alex Grobman - Nations United: How the United Nations Undermines Israel and the West

Mark Cohen - Under Crescent and Cross: The Jews in the Middle Ages

Jason Burke - Al Qaeda

Lawrence Wright - O Vulto das Torres

O Corão


Domingo, Novembro 18, 2007

Sobre o Islã - Resenha do livro de Ali Kamel - Parte 1

Farei uma série de artigos mostrando erros do livro de Ali Kamel chamado "Sobre o Islã". Gostei de certas partes do livro, que são excelentes. Porém as partes I (De Adão a Maomé), a parte III (o Islã não é violento) e a parte IV (As origens do Terror Islâmico) são repletas de problemas.

O ponto de maior discordância é a afirmação da parte IV do livro, que diz: "O Islã não é violento".

Vou mostrar um dos erros de Ali Kamel neste artigo. Há muitos outros... fique ligado no blog.

Na página 82 do livro de Kamel ele diz o seguinte: "Não é à toa também que muçulmanos podem se casar com cristãs e judias, sem que elas precisem se converter". A conclusão que Kamel tira é essa: "Se o Islã permite que seus fiéis vivam toda sua vida, e procriem, com fiéis de outras religiões, como não falar em acolhimento?" Para Kamel, portanto, essa possibilidade de um muçulmano se casar com uma mulher não muçulmana de outra religião mostra que o Islã respeita as outras religiões monoteístas. Essa conclusão é totalmente descabida.

Vamos aos fatos. De acordo com o historiador Albert Hourani, em seu livro "Uma História dos Povos Árabes" página 131: "Vários fatores separavam os muçulmanos dos não-muçulmanos: pagavam um imposto per capita especial (jizya) ao governo. Pela lei e costumes islâmicos, exigia-se que trouxessem alguns sinais de sua diferença: usavam roupas de um tipo especial, evitava certas cores associadas ao Profeta e ao Islã, não andavam com armas nem montavam cavalos, não deviam construir novos lugares de culto, consertar os velhos sem permissão, nem construi-los de modo a ofuscar os dos muçulmanos... Observadas de maneira mais estrita eram as leis sobre casamento e herança. Um não-muçulmano não podia herdar de um muçulmano; um não-muçulmano não podia casar-se com uma muçulmana, mas um muçulmano podia casar-se com uma judia ou cristã."

Fica claro, pelo texto de Hourani, que a permissão de um muçulmano se casar com uma mulher não-muçulmana é mais uma das leis de segregação e rebaixamento dos não-muçulmanos e não um "acolhimento". O homem muçulmano poderia desposar uma não-muçulmana. Seu filho seria muçulmano e, desse modo, toda a herança de sua família não-muçulmana iria para o filho muçulmano.

Além disso pode-se ver ainda mais claramente como essa lei rebaixa as outras religiões analisando-se os comentários dessa lei islâmica no link:
http://www.jannah.org/sisters/intermarriage.html .

No final do artigo reproduzo alguns trechos (com negrito meu). Fica mais uma vez demonstrado que essa lei é uma forma de impor a dominação islâmica. O casamento de um muçulmano com uma muçulmana só é permitido em terras islâmicas. Pode-se perguntar: por quê? O comentário da lei islâmica sobre casamento em fés diferentes é claro: Em um país democrático ocidental os filhos ficam frequentemente com a mulher. A democracia ocidental defende os direitos femininos e protegeria a mulher também da provável violência a que seria submetida. Já num país islâmico os filhos ficariam com o homem, pois sendo muçulmanos eles não poderiam ser "desviados" pela família não-muçulmana da mulher. Além disso algo pior poderia ocorrer: por ser uma cidadã de segunda classe em dobro (por ser mulher e por ser não-muçulmana) essa mulher ficaria sem os filhos e seria ainda mais humilhada e violentada, do que seria usualmente, nas terras islâmicas.

Tendo em vista que Kamel fez uma pesquisa, digamos, razoável, então das duas uma:

1 - Ou ele simplesmente não estudou direito os textos e esqueceu de ler livros fundamentais sobre o tema.

2 - Ou ele utilizou a documentação (mostrando apenas o que lhe interessava) de modo a enfatizar sua visão pré-concebida e paternalista de que o Islã é uma religião pacífica.

Ao tratar de um tema tão complexo Kamel deveria ter analisado com mais atenção suas fontes, documentos históricos e livros. O paternalismo em relação ao Islã, conforme analisado magistralmente pelo historiador Efraim Karsh, causa mais males do que benesses.

No próximo artigo há uma bibliografia fundamental, com livros de vasta profundidade e que desmontam o mito da tolerância islâmica.


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MUSLIM WOMAN AND NON-MUSLIM MAN:..... And give not (your daughters) in marriage toAl-Mushrikun** till theybelieve in Allah alone and verily a believing slave is betterthan a (free) Mushrik, even though he pleases you....[2:221] ** Al-Mushrikun=>Pagans, idolators, polytheist and disbelievers inthe Oneness of Allah and in His messanger Prophet Muhammad SAW)- [[6]]Islam considers the husband head-of-the-family and therefore requires that a Muslima cannot marry a non-Muslim because she will be under the authority of a non-muslim husband. He may prevent her from carrying out her religious obligations by either pressuring her or physically abusing her. But it is not the sole reason for imposing the restriction. The situation isconsidered very damaging for the woman to practise Islam afterwards and even worse for the kids in such marriages. There are NO conditions mentioned under which a Muslim woman IS allowed to get married or remain married to a non-Muslim husbandafter she has accepted Islam. Therefore, even if she has freedomto practise Islam after marriage, she is NOT allowed to enterinto an inter-faith marriage .

MUSLIM MAN AND NON-MUSLIM WOMAN:MARRIAGE WITH CHRISTIANS AND JEWS: The marriages between Muslim men and CERTAIN non-Muslim women is allowed. However, certain restricitions exist on such marriages, especially if they occur in non-Muslim lands where Islamic law and religion is notprevailing.Here I am translating the "fatwaa" from Maulana Muhammad YousufLudhianvi, a well-known Muslim scholar from Pakistan, answering a question regarding the shar'aii position of marriages in theUS with non-Muslim women. This question was asked by a PakistaniMuslim, living in the US, and it appeared in Maulana's columnthat is published every Friday in a daily newspaper, "Jang". He interprets the Islamic law as following:/******* 1- Non-Muslim women, to whom Muslim men can marry, arethe women from Christian and Jewish religions who are residentsof "Daar-ul-Islam****" nations where Islamic law prevails) and who are thereby called, "Dhi'mmi" (those who give Jazzia insteadof Zakaat in an Islamic state??), but NOT the residents of "daral-kufr" (where the kuffar or non-Islamic rule exist). To these women, marriage is allowed but is "mukrooh tanzihi." (I can'ttranslate it properly)2- With Christian or Jewish women, who are resident of "dara-harb"****, the nikah (the marriage contract) will be valid, but will be a "mukrooh Tahrimi" (worse than tanzihi) situation.The act which is "mukrooh tarhimi" is so close to "haraam" (notpermissible at all) that it is ALMOST "haraam" and is "na'jaiz" ie. not legal. The man involved will be responsible forcommitting an act which is so close to a state of "sin". **** Victor Danner describes "Dar al-Islam" as : the House of Islam, or the Islamic world; the Islamic community, where submission to the Divine Will reigns; Opposed to dar- al-harb ( the non-Islamic community)3- It is required that the women should be practising theirreligion at the time of marriage and they are not practically "Mulhid" (atheist). To any women, who doesn't believe in God,religion, God's message and doesn't practise any religion atall, the "nikaah" (marriage) will be INVALID and according to "shari'ah" (Islamic Law), such a couple is involved in sin.4- If any Muslim marries a woman from "People of the Books", thechildren, by shar'iah (Islamic law) are considered to be Muslim .For instance, often, in "dar al-harb," the kids adopt thereligion of their mother; and, sometimes, a marriage is arrangedupon agreements between the couples that half of kids will adoptmother's and the other half will follow father's religion. If aMuslim man agrees to ANY of such terms accepting the kids to beraised non-Muslims, the person will be regarded as a "Murtid"(the one who has denied Islam) because he has allowed his kidsto become "kaafir" who may have been brought up in Islamic religion. Anyone who willingly and knowingly allows/agrees forhis kids to become "kaafir" is regarded as "kaafir." He is outof the Islamic circle. If he had any Muslim woman in his"nikaah" before this marriage, the Muslim woman is free from his bond (because a Muslim woman can't remain married anon-Muslim).5- Since some of our naive Muslim youngmen, living in the West,get married to the christian women in their countries. And since, usually, the local courts allow the women to get the custody of kids and the divorce settlement in their favor, ouryoungmen are "khusar al-duniyaa wal'-aakhiraah", means thewanderer or lost in this world and the Hereafter. Since,according to sharia'ah, the "al-maa'roof ka'almashrrot", meaning whatever is prevailing or common practise in the society isbeing accepted in a marriage contract. It means a Muslim man,by getting married under these circumstances in these countries,is knowingly agreeing that the woman may, in case of divorce, gets the custody of the kids and is free to raise themafterwards as she pleases.6- For all the above stated reasons, in non-Muslim countries, it is not allowed for Muslim youngmen to marry Christian women . Forthe reason #3 (woman not practising a religion), the "nikaah"isn't even valid. Since the reason #4, leads to "kufr" and hebecomes "murtid", the marriage to any Muslim wife becomes invalid. The reason #5 is not apllicable, if the local laws donot usually grant custody to woman or if Muslim man hasn'tagreed to any "kufriaah" terms (such as accepting some kids tobe raised as non-Muslims). "Haaza ma' indee, wal'Allah ilm bis'swaab." *******/As it is clear, that Maulana Yousuf's position is extremelystrict on the issue of getting married to non-Muslim women inthe West. But so is the seriousness of such situations. A scholar at Dar ul-Noor hifz school and Al-Farooq Masjid,Atlanta, Dr. Abdul Ghaffar, recommends that if a Muslim isalready married to a non-Muslima, he should REMAIN married toher. He should be kind and passionate to her and facilitate her understand of true Islam. He should reflect Islam in hischaracter and encourage her to become Muslim voluntarily beforekids are born into such marriage. At that time, I found out theAl-Farooq Masjid doesn't even administer ANY inter-faith marriages.The best option under these circumstances is to introduce thewoman to Islam and WAIT for her to accept Islam before gettingmarried. If the woman is not a Muslim by her own choice, then in case of divorce, she may leave Islam and be free to dateand marry a non-Muslim. Her new family may ultimately decide howto raise the Muslim man's children. This situation should neverbe acceptable to any Muslim man.

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

Israel e o meio ambiente

No dia de hoje, 15 de outubro, é a data conhecida como Blog Action Day. Nesta data vários blogueiros ao redor do mundo se unirão para falar sobre um tema em seus blogs. O tema deste ano é meio ambiente ( Environment ). Encontrei essa notícia no Slashdot.

Aproveito para unir o assunto ambiental com o tema de Israel.

Israel é um dos países mais avançados também no assunto meio ambiente. O governo israelense investe somas consideráveis na pesquisa ambiental. Exemplos do pioneirnismo israelense: a irrigação por gotas, dessalinização de águas, uso da energia solar, uso de controles biológicos em vez de químicos nas fazendas.

Além disso Israel é um dos países que mais trata de seu lixo. Em torno de 85% do lixo de Israel é tratado de uma forma amigável ao meio ambiente, em comparação com apenas 10% há dez anos atrás.

As costas marítimas israelenses no Mediterrâneo e no Mar Vermelho são das mais protegidas em todo o mundo. Israel possui um grande centro de controle e vigilância da poluição marítima e está instalando um sistema de vigilância computadorizado mais eficaz para capturar dados acerca de toda a costa.

Em relação à qualidade do ar, o Estado de Israel voluntariamente decidiu restringir e reduzir o nível de emissão de poluentes na atmosfera. Além disso uma série de medidas foram adotadas para reduzir a emissão de gases de veículos motores.

Israel possui em torno de 27.000 quilometros quadrados. Destes em torno de 3.500 já são áreas protegidas (esse número chegará em breve a 6000 quiloometros quadrados) constituídos em 142 reservas naturais e 44 parques nacionais. Uma proporção enorme de áreas preservadas em comparação com o pequeno tamanho do país.

Resumindo: Israel é mais uma vez um pioneiro e um exemplo a ser seguido, também no campo de proteção ao meio ambiente. Maiores informações podem ser encontradas no site do Ministério das Relações Exteriores de Israel e no site do Ministério do Meio Ambiente de Israel.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

A esquerda anti-sionista e o mito da ocupação de Franklin Goldgrub

Artifo de Franklin Goldgrub - Psicólogo, historiador, professor da Faculdade de Psicologia da PUC/SP, autor de O neurônio tagarela, A metáfora opaca e A máquina do fantasma, entre outros livros.



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A esquerda anti-sionista e o mito da ocupação


A mais recente versão do mito da ocupação, ao contrário da primeira, elaborada pelos regimes monárquicos do Oriente Médio e pelo clero islâmico, desenvolveu-se a partir da criação da Organização de Libertação da Palestina, fundada em 1964 sob os auspícios do Egito e da Liga Árabe com base no modelo estabelecido pelo movimento terceiro-mundista surgido na década de 60. A adesão da esquerda à nova versão foi paulatina e tomou impulso quando a crise da União Soviética entrou em sua fase mais aguda, culminando com a dissolução do regime comunista em 1991. Da década de 80 em diante, e principalmente a partir dos anos 90, o “problema palestino” transformou-se na mais importante causa internacional para o vasto espectro de organizações em que a concepção ideológica de inspiração marxista havia-se dividido.

A instalação da OLP na margem ocidental e em Gaza (1994), conseqüente aos acordos de Oslo (1993) e, antes disso, o desencadeamento da primeira intifada (1987), apresentada pela mídia internacional como a luta desigual entre um Davi armado com pedras e o Golias israelense, deu início ao processo que alcança hoje o nível do paroxismo. O novo Santo Graal da esquerda magnetizou as atenções, com forte presença na mídia, nas associações profissionais (sindicatos e conselhos), na rede de organizações não governamentais (pacifistas, de direitos humanos, feministas, anti-racistas), nas universidades, em partidos políticos, fóruns, simpósios, reuniões de escritores e onde quer que o anti-americanismo suscite a participação entusiasta de uma platéia ansiosa por manifestar a sua profissão de fé progressista. Ao lado do liberal “bem pensante”, alvo da ironia esquerdista nos anos 60, e da figura do “bom burguês”, apareceu um novo personagem, o “politicamente correto”, que reserva parte de seu tempo livre para a indignação com a injustiça. Seletivamente, isto é, desde que não praticada por governos que se auto-proclamam marxistas e “companheiros de viagem”.

A categoria “companheiro de viagem” cai como uma luva para explicar a relação entre a esquerda e o islamismo militante, que preconiza a jihad. A esquerda evita qualquer pronunciamento sobre os 200 mil mortos e os dois milhões de deslocados de Darfur, em que genocídio e limpeza étnica se combinam. A omissão é facilmente explicável. A ditadura sudanesa é islâmica e suas vítimas pertencem a etnias cristãs e animistas. Na medida em que o fundamentalismo islâmico substituiu o comunismo soviético como contrapeso ao poder americano, a esquerda o considera um aliado. Já o cristianismo constitui uma “religião imperialista” e o animismo é politicamente irrelevante. As preocupações humanitárias do campo progressista seguem estritamente uma norma inconfessa: não se aplicam aos que se situam no lado errado do mapa ideológico.

Nas últimas décadas do século XX a esquerda tornou-se a grande caixa de ressonância do anti-sionismo, exercendo um papel similar ao que os partidos políticos de direita haviam tido na difusão da peculiar modalidade de anti-semitismo produzida pelo 3º. Reich. Desse ponto de vista, a esquerda aceita o tratamento discriminatório dado a cristãos e judeus nos países muçulmanos e não raro seus expoentes justificam os atentados terroristas contra civis desarmados como única forma de resistência possível contra a “ocupação” — da margem ocidental, Gaza, Afganistão, Iraque. De maneira geral, a jihad é interpretada enquanto reação contra a secular opressão ocidental, portanto plenamente justificada. Uma espécie de racismo pelo avesso considera os “brancos” — o “primeiro mundo” — digno(s) de toda e qualquer punição.

Mas como no léxico esquimó, o branco tem gradações. Orwell dizia que há os iguais e os mais iguais. Cinqüenta anos depois do Holocausto, Israel passou a ser responsabilizada pelo “sofrimento do povo palestino”, exatamente como os judeus haviam sido acusados pelo “sofrimento do povo alemão”. O dedo acusador é agora apontado pela outra mão.

O nazismo elaborou a sua versão peculiar de anti-semitismo responsabilizando inicialmente os judeus alemães pelas dificuldades germânicas—derrota militar, crise econômica, degeneração moral. Na seqüência, ampliou a tese, atribuindo à raça inferior, equiparada aos ratos , os males padecidos pela humanidade. Finalmente, estendeu o conceito de raça inferior aos não arianos. No plano político, capitalismo e comunismo foram regimes especialmente visados pelo nazismo, que os associou eletivamente aos judeus. O conceito de espaço vital (“Lebensraum”) inicialmente reservou a Europa para os arianos, mas os ideólogos da eugenia ampliaram a jurisdição da sua supremacia racial ao restante do planeta.

O fundamentalismo islâmico começou responsabilizando o sionismo pelo sofrimento árabe em geral. Depois de 1964, quando a OLP foi criada, a vítima por excelência de Israel passou a ser o “povo palestino”. Na seqüência, os oradores das mesquitas se comprouveram em chamar os judeus de “porcos e macacos”, atribuindo-lhes os males padecidos pela humanidade. Seguiu-se a proclamação da jihad por parte de milícias criadas, amparadas e financiadas pelos regimes do Oriente Médio: o dever de todo muçulmano é converter os infiéis, matar os renitentes e destruir as outras formas de fé e sociedade — o judaísmo, Israel, o cristianismo (“os cruzados”) e os regimes políticos ocidentais, nos quais a separação entre estado e religião representa um princípio firmemente estabelecido. Oficialmente, as ditaduras do Crescente consideram que o espaço destinado ao Islã é em princípio o Oriente Médio, mas os imãs o estendem ao restante do mundo.

Os ideólogos da supremacia ariana foram obrigados a admitir certas exceções. O 3º. Reich estabeleceu alianças explícitas ou implícitas com representantes de raças menos puras, como o regime fascista de Benito Mussolini, o islamismo (representado pelo Mufti de Jerusalém, Haj Amin El-Husseini, com quem Hitler encontrou-se pessoalmente em 1941) e o Império Japonês (Pacto Anti-Komintern de 1936).

O Irã e a Síria consolidam laços com a Rússia e a China, cujos governos combatem e/ou oprimem minorias muçulmanas, assim como os regimes militares do Egito e da Síria haviam celebrado acordos com a então União Soviética nos anos 50 e 60, sem por isso deixar (até pelo contrário) de proibir qualquer atividade política de oposição, inclusive (e principalmente) de esquerda.

A segunda guerra mundial foi precedida pela invasão da Tchecoslováquia (1938), a pretexto de defender os direitos da minoria alemã da região dos Sudetos. O Estado de Israel foi invadido em 1948 a mando da Liga Árabe (fundada em 1945 no Cairo, sob a inspiração da Grã-Bretanha), a pretexto de proteger os árabes da então Palestina.

Ao contrário dos alemães governados por Hitler, a minoria germânica dos Sudetos gozava de todos os direitos civis garantidos aos demais cidadãos tchecoslovacos. Ao contrário da população dos demais países do Oriente Médio (e dos demais povos muçulmanos, como o iraniano, o paquistanês, o sudanês), os cidadãos árabes de Israel gozam de todos os direitos civis garantidos aos demais cidadãos israelenses, assim como acontecia com os árabes que residiam na região prevista pela Partilha para o estado judeu.

Os governos europeus do período entre guerras, principalmente França e Grã-Bretanha, fizeram vistas grossas ao rearmamento alemão, proibido pelo Tratado de Versalhes, devido ao discurso anti-comunista do partido nacional-socialista. Tendo fracassado nas sucessivas tentativas de depor o governo comunista nos anos seguintes à tomada de poder pelos bolcheviques, o liberalismo nem por isso desistiu de livrar-se da ameaça. Quando chegou a ocasião, entendeu que a máquina de guerra nazista teria motivação e força suficientes para fazê-lo. Nem as evidências de uma perseguição inaudita aos judeus nem a invasão da Tchecoslováquia interferiram na “Realpolitik” das potências ocidentais. O fim justifica os meios.

A esquerda entende que as violações dos direitos humanos, as ameaças de genocídio, o terrorismo, o caráter abertamente reacionário dos regimes do Oriente Médio, o massacre e a limpeza étnica cometidos em Darfur não devem interferir na sua “Realpolitik”, orientada em primeiro lugar para o combate aos interesses americanos, principalmente a globalização. O preço do apoio ao fundamentalismo islâmico, ou seja, a destruição de Israel, torna-se aceitável. É preciso previamente demonizar o sionismo. Que entre Israel e Estados Unidos haja uma aliança ajuda a retratar o estado judeu com tridente, rabo e chifres; que o velho mote anti-semita associando judeu e dinheiro alimente como uma fonte subterrânea o santimonioso reservatório progressista, fortalecendo a sinonímia entre Israel e capitalismo, melhor ainda. O fim justifica os meios.

A similaridade entre o ideário e a práxis do hitlerismo e do jihadismo é tão evidente que se torna difícil imaginar como a imputação de nazismo possa ser dirigida a Israel. Entretanto, o uso desse qualificativo para designar o sionismo é extremamente freqüente por parte da esquerda, que faz coro com organizações terroristas cujas ações e proclamações oficiais não deixam a menor dúvida quanto à intenção de destruir o estado judeu e eliminar 80% de sua população — coincidentemente, a não árabe. O discurso oficial da esquerda em relação ao conflito do Oriente Médio difere do proferido pelo Hamas e pelo Hezbollah apenas por conter um número menor de pontos de exclamação e não fazer referências a Allah.

Nas versões não “maximalistas”, às quais a esquerda moderada (minoritária) declara aderir, a aniquilação dos judeus é substituída pela idéia de um “estado bi-nacional”. O modelo mais próximo de um “estado bi-nacional” no Oriente Médio é o Líbano — cuja população, quase cem por cento árabe, divide-se aproximadamente entre muçulmanos e cristãos. A beligerância entre ambos os grupos já causou uma guerra civil cruenta (1975-1990) , responsável por cem mil mortes, e se exacerba freqüentemente. A sociedade libanesa é desestabilizada constantemente por assassinatos políticos, escaramuças entre milícias, distúrbios eleitorais, crises econômicas, restrições ao poder governamental e estabelecimento de enclaves autônomos. A referida guerra civil abriu caminho para a intervenção da Síria, que durou 29 anos e ainda permanece de forma velada, embora oficialmente tenha sido encerrada em 2005. Na seqüência da saída das tropas sírias do território libanês, imposta pela ONU, líderes cristãos proeminentes, como o ex-primeiro ministro Rafic Hariri, foram assassinados.

Um dos resultados mais palpáveis da situação do estado bi-confessional do Líbano é a constante emigração dos cidadãos maronitas (cristãos). Trata-se de um processo de limpeza étnica, praticado pelos muçulmanos, pouco comentado pelos mesmos motivos que explicam a invisibilidade midiática do genocídio de Darfur. A expulsão da população cristã do Líbano acontece a um ritmo mais lento do que a maioria dos processos de limpeza étnica em virtude da intervenção esporádica da França e dos Estados Unidos, o que ajuda a compreender porque as preocupações humanitárias da esquerda estão ausentes do cenário libanês — incluindo o silêncio sobre a ocupação síria.

A esquerda, que participou com veemência da condenação ao massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila (comandado por Elie Hobeika, chefe da milícia cristã falangista, mas atribuído a Sharon), jamais protestou contra o morticínio de civis cristãos cometido por milícias muçulmanas.

Os principais motivos da adesão entusiasta da esquerda ao anti-sionismo podem ser discernidos sem grande dificuldade.

O anti-americanismo ocupa um lugar de destaque. A implosão da União Soviética levou a uma modificação nas concepções professadas pela esquerda, ainda pouco estudada, em que o ódio aos Estados Unidos tomou o lugar da crítica marxista ao capitalismo. O declínio do marxismo teórico e sua destituição do papel orientador que exercia em relação à práxis das organizações de esquerda devem-se em grande medida à falha de uma previsão célebre — segundo a qual a economia de mercado seria atingida por uma crise fatal em virtude de suas contradições internas, a partir do antagonismo entre a maximização da taxa de lucro e a correspondente pauperização da população.

A guerra fria, iniciada imediatamente após a capitulação do exército alemão, e cujo marco inicial foi a discussão sobre o desenho do novo mapa europeu , representou simultaneamente um confronto entre ideologias e estados. A estratégia do Kremlin, a curto prazo, foi impedir que a supremacia militar ocidental do pós-guerra chegasse ao ponto de ocasionar um desequilíbrio na relação de forças. O poderio americano, baseado no notável desenvolvimento econômico em decorrência do esforço bélico e na incolumidade à devastação, intensificou-se com o desenvolvimento da bomba atômica, resultando numa vantagem considerável já no início da chamada corrida armamentista.

Garantida a estabilidade no terreno militar graças ao equilíbrio nuclear, a certeza de que a economia não planificada sucumbiria às suas contradições internas assegurava que o comunismo venceria a competição com o capitalismo.

Assim, a “convivência pacífica”, famosa expressão cunhada por Kruschev em 1959, traduzia o interesse em acomodar os interesses de estado das grandes potências, enquanto a médio ou longo prazo estimava-se que o conflito já tinha um vencedor. No campo da esquerda não havia a menor dúvida de que as férreas leis da economia agiriam de maneira implacável, castigando os desajustes da produção anárquica fundada no princípio da mais valia e da exploração da classe trabalhadora.

O “kruschevismo” substituía o embate direto preconizado por Stalin por uma competição moderada, em que os conflitos não ultrapassariam certos limites e sobretudo o arsenal nuclear permaneceria estritamente controlado. Eventualmente posta à prova em crises como a dos mísseis cubanos (1962), a convivência pacífica constituiu a pedra angular da relação entre as duas grandes potências durante as quatro décadas da guerra fria.

No terreno econômico-ideológico, porém, o embate não cessou. Kruschev aceitou o desafio no campo menos favorável ao regime soviético, competindo na esfera da produtividade e do desenvolvimento científico e tecnológico, associados ao consumo de bens e à corrida espacial. Os novos rumos tomados pelo comunismo soviético acentuaram a crise da esquerda na medida em que questionaram sua escala de valores, culminando com um conflito aberto entre o Kremlin e a China de Mao Tsé Tung. Os partidos comunistas ocidentais dividiram-se segundo as mesmas linhas da cisão ideológica entre as grandes potências comunistas. O maoísmo inspirou diversos grupos dissidentes, de natureza extra-parlamentar, iniciando um movimento que não se deteve antes de gerar concepções mais “puras” e radicais (a linha albanesa, o Khmer Vermelho cambodjano e as guerrilhas nos países do chamado terceiro mundo).

Por essa via, setores da esquerda optaram pela luta armada, adotando posições de vanguarda. Outra tendência seguiu o caminho exatamente oposto. Surgiram assim partidos cujos programas não eram mais tributários de modelos externos, fundamentalmente ideológicos, mas expressavam uma atitude pragmática voltada para a defesa dos interesses imediatos das classes trabalhadoras locais. Esses movimentos, geralmente de origem sindical e associados aos partidos comunistas da linha russa, acataram as regras do jogo político prevalecentes nas democracias liberais.

O fim do regime soviético, após quase oito décadas de vigência, aprofundou as divergências ideológicas da esquerda. Antes disso, tanto os excessos como o esvaziamento da Revolução Cultural desencadeada em 1966, a morte de Mao Tsé Tung em 1976, a ascensão de Deng Xiaoping e o novo rumo tomado pela China na direção da economia de mercado já haviam acrescentado mais elementos à crise ideológica. O regime comunista albanês, última cidadela do modelo stalinista que sobreviveu às guinadas soviética e chinesa, desfez-se após a morte de Enver Hoxha (1985), que permanecera no poder durante quarenta anos. Na seqüência, uma séria crise econômica levou a Albânia a um princípio de guerra civil.

O conflito armado e os confrontos políticos sempre fizeram parte da tradição militante. A entrada do Exército Vermelho em Berlim (1945), a vitória de Mao Tsé-Tung e expulsão de Chiang Kai Chek para Taiwan (1949), o êxito da guerrilha vietnamita no longo conflito do sudeste asiático (1959-1975), a Revolução Cubana (1959) e o fim do Apartheid sul-africano (1991/1994) constituem marcos heróicos na trajetória histórica da esquerda revolucionária. Entretanto, também houve vitórias de Pirro.

Nos países africanos, a eclosão da violência interna —tribal, étnica, religiosa — eclipsou a tomada de poder pelos movimentos nacionalistas de inspiração marxista. As ditaduras militares decorrentes desses conflitos exerceram (exercem) o poder com a crueldade típica do período colonial — sem qualquer tipo de intervenção inibidora por parte da URSS e da China, freqüentes patrocinadores e inspiradores desses regimes.

A cisão ideológica e o conflito de interesses entre os gigantes do mundo socialista, que marcaram a última metade do século, representam apenas parcialmente uma crise muito mais vasta, cujos efeitos permitem compreender o papel assumido pelo conflito do Oriente Médio na concepção “progressista”. As denúncias sobre o horror dos campos de trabalhos forçados stalinistas , a crise entre a União Soviética e a República Popular da China, o massacre da Praça Celestial (1989), a agonia do comunismo russo, o progressivo fechamento político e a burocratização da revolução cubana, as guerras civis nos países africanos e asiáticos emancipados do domínio colonial, a derrota dos movimentos revolucionários latino-americanos inspirados em Sierra Maestra, o desmantelamento dos grupos terroristas europeus (as Brigadas Vermelhas italianas, a gang ou facção Baader-Meinhof), a impopularidade crescente dos partidos comunistas da Europa Ocidental, cada vez menos votados, a queda dos regimes da Europa Oriental e da Albânia, a eclosão da guerra civil iugoslava após a morte de Tito e os massacres do Khmer Vermelho no Cambodja também constituem marcos, mas desta vez de uma crise ideológica que impactou fortemente a esquerda, até não deixar pedra sobre pedra das antigas certezas.

Uma grande causa internacional tem tudo para promover a união esfacelada, desviar a atenção de crimes nefastos, afastar a dúvida, recuperar os desgarrados, instilar confiança nas crenças abaladas, angariar adesões, retomar a iniciativa e sobretudo vislumbrar a possibilidade de uma vitória capaz de restaurar a fé no ideal. Desse ponto de vista, o triunfo das forças de Ho Chi Min no Vietnã cumpriu um papel exemplar.

A guerra fria, situando Israel no campo americano e os regimes militares do Oriente Médio na esfera de influência soviética, preparou o terreno. O nome fetiche “Organização de Libertação da Palestina”, adotado segundo os moldes da onomástica terceiro-mundista, destinado a evocar em conjunto o nacionalismo e a revolução, obliterou convenientemente o patrocínio da Liga Árabe (que congrega as ditaduras do Oriente Médio). Mas a fragmentação e a deterioração do ideal socialista, ou a Grande Desilusão, constituiu o fator fundamental que mobilizou ao extremo os corações e as mentes do “campo progressista”.

Da mesma forma que a derrota na primeira guerra mundial instalou uma séria crise na Alemanha, favorecendo o surgimento do patriotismo destinado a recuperar o orgulho nacional, cujo primeiro grande êxito foi a culpabilização, discriminação e eliminação de uma minoria desarmada, a esquerda, fragilizada por sucessivas derrotas e sobretudo pelo dogmatismo que as provocou, elege Israel como alvo propício para representar todos os males do capitalismo — consubstanciados no colonialismo, no racismo e na ocupação. Assim como a vulnerabilidade dos judeus encorajou o sadismo nazista, Israel atrai a belicosidade de uma esquerda que se sente humilhada. Na concepção progressista, o diminuto país representa o aspecto frágil do poder americano, uma ilhota de 7 milhões de pessoas no conturbado oceano muçulmano de 200 milhões de habitantes (apenas no Oriente Médio). A destruição do estado judeu torna-se imprescindível para assegurar uma vitória simbólica capaz de restaurar a fé na vulgata marxista, após o insucesso da economia de estado no embate contra o modelo baseado no mercado.

Embora se trate de situações bem diferentes, é possível detectar uma semelhança entre as decorrências da derrota germânica na primeira guerra mundial (1914-1918) e do fracasso do regime comunista russo (1917-1991). A classe dominante alemã e as lideranças da esquerda depararam-se diante de duas possibilidades: mudança ou manutenção das concepções anteriores (militaristas e ideológicas, respectivamente). Em ambos os casos optou-se pela segunda alternativa.

O autoritarismo recorre à desinformação para evitar mudanças tidas como inaceitáveis. O mesmo processo está acontecendo atualmente em relação ao Oriente Médio, colocando em jogo interesses diversos mas convergentes: o das ditaduras locais (manutenção do status quo), o da esquerda (oposição principista aos EUA) e o do liberalismo, associado a interesses de estado (petróleo e petrodólares). O anti-sionismo corresponde a uma somatória de fatores pragmáticos e ideológicos.

A morte de Stalin, reativando os conflitos internos do Partido Comunista da União Soviética, bem como a crise econômica no leste europeu, desencadearam um processo que revelou o real estado de coisas nos países socialistas, impactando profundamente o campo progressista. Os crimes praticados pelas ditaduras do proletariado, finalmente expostos graças à destituição dos respectivos governos, os privilégios dos membros do partido (a “Nomenklatura”), cuidadosamente escondidos durante décadas, as decisões no campo das relações internacionais, correspondentes à busca de hegemonia, vieram à tona simultaneamente e produziram um efeito devastador.

Na medida em que a crise ideológica da esquerda aconteceu em concomitância com uma atenuação considerável nas práticas intervencionistas da política externa norte-americana, expressa sobretudo pela mudança de atitude em relação às ditaduras latino-americanas, tradicionalmente respaldadas por Washington, a militância esquerdista viu o mundo virado do avesso. A nova política norte-americana deveu-se menos a uma transformação ideológica do capitalismo do que à eficácia dos novos mecanismos econômicos internacionais, expressos no processo de globalização, em que a interdependência comercial e tecnológica transforma os países em parceiros obrigatórios, deslocando os conflitos para as mesas de negociação.

As acusações feitas a Israel têm o caráter de uma gigantesca projeção. Na medida em que Israel e Estados Unidos são aliados e a comunidade judaica norte-americana, organizada em lobbies, possui uma parcela de influência no Congresso , todas as acusações que puderem ser feitas a Israel repercutem automática e diretamente sobre a Casa Branca, responsabilizada pelos “desmandos da entidade sionista”, e vice-versa. A satanização de Israel serve, entre outras, também à finalidade de colocar os Estados Unidos no banco dos réus e cumpre a função suplementar de desviar a atenção das repetidas violações dos direitos humanos praticadas durante a vigência dos regimes comunistas da Europa Oriental e atualmente em Cuba. Ao mesmo tempo, oblitera as gravíssimas práticas repressivas dos regimes do Oriente Médio — inclusive as da Autoridade Palestina.

Para o conjunto organizado de partidos políticos e movimentos da esquerda, o efeito da demonização de Israel não é desprezível. Restaura as certezas perdidas e insufla alguma sobrevida ao ideal moribundo. Desse ponto de vista, o anti-sionismo torna-se imprescindível para todos os que não aceitam examinar os fatores e processos que fizeram do socialismo real uma caricatura cruel do socialismo teórico. Evita-se assim questionar crenças e valores tidos por sagrados.

A equação “sionismo = racismo, genocídio, colonialismo”ressuscita a fé cambaleante, beneficiando desde o militante convicto, para quem a vida só tem sentido na perspectiva da luta sem quartel contra a direita, passando pelo simpatizante moderado, interessado em manter sua visão de mundo em compasso com o humanismo pasteurizado do multiculturalismo anti-ocidental, até o neófito em busca de uma posição ideológica que lhe permita ingressar no grupo dos “politicamente corretos”. Se o socialismo real foi decepcionante do ponto de vista ético, social e econômico, ainda assim seus erros seriam insignificantes e venais quando comparados com os pecados capitais da globalização, encarnada perfeitamente por Israel , que será responsabilizada nada menos do que por crimes da magnitude do colonialismo, do racismo e do genocídio.

Explica-se assim a participação da esquerda israelense, afinal um ramo do campo progressista como outro qualquer, na satanização do sionismo, embora os adversários do estado judeu considerem seu testemunho particularmente valioso — mais ou menos como os inquisidores se regozijavam com as confissões dos cristãos novos.

A esquerda, como o capitalismo, não conhece fronteiras e tem a sua própria definição do que constitui o certo e o errado em termos de nacionalismo e internacionalismo. O sionismo peca ainda mais porque o sistema produtivo israelense, “além de tudo”, está integrado à economia internacional e suas pesquisas impulsionam a tecnologia, base do processo de globalização. Longe de pertencer ao terceiro mundo, Israel é um país que prospera numa região tida como subdesenvolvida por culpa do capitalismo (apesar da renda incomensurável proveniente do petróleo). O progresso israelense é tão desconfortável para a esquerda como foi a comparação entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental — afinal, as ditaduras do Oriente Médio também primam pelo controle irrestrito do estado sobre a sociedade, com as devidas conseqüências.

Os regimes militares árabes revelam uma grande semelhança (ideologia à parte), com os regimes comunistas europeus. Afinidades eletivas insuspeitadas operam na atual aliança entre a esquerda e o fundamentalismo islâmico. A esquerda despreza a “classe média” (herdeira da pequena burguesia tão ironizada por Marx), representada no Oriente Médio por Israel, a quem responsabiliza pela miséria da população governada pela autoridade palestina, equiparada ao proletariado explorado e desapropriado. Não entra em conta, nessa concepção, que o montante da ajuda internacional concedida a Arafat e a seu atual sucessor supera qualquer outra forma de financiamento internacional feita a fundo perdido — quer atualmente, quer no passado. As estatísticas comprovam que as doações européias e americanas ultrapassam consideravelmente as efetuadas a países devastados, inclusive a Europa do pós–guerra (plano Marshall).

Assim como a caricatura do judeu elaborada pelo anti-semitismo clássico permitiu ao militante nazista ou neo-nazista e ao racista em geral projetar no outro o que considera inaceitável em si, as acusações feitas a Israel transpõem diretamente o conteúdo das denúncias mais do que comprovadas em relação às práticas governamentais da esquerda. Ou seja, não apenas são acusações falsas, mas refletem o que as ditaduras do proletariado efetivamente fizeram no desempenho do poder. As declarações do escritor José Saramago, conhecido membro do partido comunista português, fiel arauto da linha stalinista, representam por excelência a aplicação da novilíngua, que George Orwell descreveu em sua novela“1984”, ao conflito do Oriente Médio.

O mesmo pode ser dito dos regimes muçulmanos. Assim como foram atribuídas aos judeus as atrocidades cometidas pelas SA e pelas SS e na seqüência pelas tropas alemãs contra as populações dos países ocupados, o fundamentalismo islâmico responsabiliza Israel pelas ações praticadas ou incessantemente tentadas pelos exércitos e as milícias terroristas das ditaduras do Oriente Médio.

O genocídio está sendo levado a cabo em Darfur, pela ditadura islâmica sudanesa; foi tentado pelo Mufti de Jerusalém durante a segunda guerra mundial, quando organizou com Hitler um plano para a liquidação dos judeus da então Palestina; prosseguiu como objetivo das quatro guerras movidas pelas ditaduras do Oriente Médio contra Israel, de 1948 até 1973; continua inspirando as ações terroristas, dirigidas principalmente contra civis israelenses; foi praticado por Pol Pot durante o período em que o seu regime “revolucionário”, inspirado e patrocinado pela China Comunista, governou o Cambodja (1975-1979) e é agora o objetivo declarado da política externa do regime dos aiatolás.

A matança dos “kulaks”, proprietários agrícolas, durante o primeiro período do poder stalinista, alcançou cifras inacreditáveis; nos campos de trabalhos forçados soviéticos (Gulag) morreram centenas de milhares; a República Popular da China é responsável por uma considerável quota de assassinatos políticos e mais recentemente tem executado prisioneiros para comerciar seus órgãos. De todos os regimes comunistas que governaram o leste da Europa pode-se dizer que exterminaram adversários políticos impiedosamente sem qualquer base legal, mesmo quando os dissidentes pertenciam aos quadros do partido. O recurso à prisão e à execução sumária constitui mais uma das afinidades eletivas entre os regimes do Oriente Médio e as ditaduras do proletariado.

Mas apesar dessas constatações, fartamente documentadas, a esquerda, em uníssono com os regimes ditatoriais do Oriente Médio, acusa Israel de genocídio. Não há como deixar de suspeitar que, no caso, “apesar” só pode significar “por causa de”.

Algo mais do que o prazer da companhia de viagem anti-americana une o fundamentalismo islâmico (ou “ditadura do califado”) e a ditadura do proletariado. Trata-se respectivamente de uma crença religiosa e de uma concepção ideológica fundadas na convicção absoluta acerca da retidão das próprias metas e valores — quer de natureza teológica ou revolucionária. Não poucos teóricos interpretaram o comunismo soviético como uma religião de estado. O camarada Stalin e o aiatollah Khomeini usaram o culto à personalidade para angariar mais a veneração do que propriamente o apoio popular; atingiram o status de figuras semi-divinas, inquestionáveis. Por outro lado, a esquerda responsabiliza o desenvolvimento tecnológico e a globalização da economia pela dissolução da URSS, da mesma forma que as ditaduras do Oriente Médio entendem que o mesmo processo é a principal ameaça que enfrentam.

A esquerda ocidental tem evitado entrar em contato com a imagem refletida por um espelho tão cruel. O capitalismo, principalmente durante o período da acumulação primitiva (expressão cunhada por Marx), cometeu os crimes quase inexcedíveis do colonialismo e do racismo. Permanece funcionando com base na exploração da força de trabalho, na injustiça social, na influência do poder financeiro sobre todas as esferas da vida, no consumismo, na massificação e na agressão irresponsável ao meio ambiente em nome do lucro. Por mais graves que sejam essas práticas ligadas à iniciativa privada e ao “laissez faire, laissez passer”, as mesmas não justificam os crimes dos estados totalitários comunistas e islâmicos, cuja verdadeira motivação está longe de ser a restauração da justiça.

Foi no afã de recuperar a bandeira da ética, absolutamente incompatível com a história dos regimes auto-denominados socialistas, que a esquerda oficial redigiu a última variante do mito da ocupação, dando à versão da OLP o verniz ideológico e a terminologia convenientes, de molde a complementar e corrigir a narrativa original, fortemente marcada pela retórica das elites locais.

O resultado final desse processo é a re-elaboração da história do Oriente Médio. A forma completa do mito da ocupação incorpora o enunciado original, que reflete a reação oficial das monarquias árabes e do clero diante dos primeiros indícios significativos de arraigamento da comunidade judaica na Palestina Britânica (décadas de 20 e 30), bem como os acréscimos e ênfases aduzidos pelas posições supostamente terceiro-mundistas da OLP (a partir de 1964), e culmina com a tradução da formulação original para o discurso ideológico destinado a enfrentar a grande crise esquerdista do final do século XX.

A Inglaterra participa do mito da ocupação como Pilatos do credo. A Declaração Balfour de 1917, em que o Governo de Sua Majestade proclama sua posição favorável ao estabelecimento de um Lar Judeu na “Palestina”, é considerada pelos fiéis anti-sionistas como o pecado original do Mandato. Entretanto, a verdadeira “culpa” de Albion foi ter administrado racionalmente uma região até então sujeita às mais caóticas formas de governo — a última das quais exercida pelo Império Otomano. Bastou isso para que um esforço organizado como o da empresa sionista frutificasse, apesar de todos os obstáculos opostos pela administração britânica da década de 20 em diante, ou seja, a partir da constatação de que o petróleo seria a mais importante das matérias primas e não convinha inimizar a aristocracia local, muito pelo contrário. Sem a derrota turca na primeira guerra mundial tudo indica que quaisquer tentativas de assentamento seriam inviabilizadas tanto pela ausência de governabilidade como pela rapinagem dos funcionários e as razzias das populações nômades da região — ou seja, o mesmo quadro que perdurou durante séculos.

Que a comunidade judaica tenha construído o essencial da sua infra-estrutura social e econômica durante o Mandato também serve à imputação de colonialismo, freqüentemente feita a Israel. Entretanto... pode-se dizer que mais uma vez as evidências contrariam a asserção anti-sionista. A presença do colonialismo no Oriente Médio está associada à criação artificial de várias entidades políticas — mas não Israel. O Iraque é um país quase inviável, criado em 1930, que reúne três populações beligerantes em torno de lençóis petrolíferos divididos entre as grandes companhias do ocidente, cujos royalties sustentam a respectiva economia. A Jordânia (1946) foi concebida para ser a base militar britânica da região e o Líbano (cuja independência também data de 1946) representa a herança da influência francesa, tanto econômica como politicamente. O Canal de Suez, construído por um consórcio franco-britânico, provê o Egito (1922) das divisas que apenas o turismo das pirâmides e o cultivo do algodão são incapazes de fornecer.

Em todos os países do Oriente Médio regidos por monarquias absolutistas e seus descendentes castrenses, a presença dos antigos colonizadores se fez sentir na exata medida de seus interesses econômicos e políticos, até que a emergência das novas potências mundiais alterou a proveniência das influências externas.

Em Israel aconteceu o contrário. Tanto do ponto de vista econômico como politico, o sionismo foi (e é) um empecilho considerável para as potências ocidentais (leia-se valor econômico e estratégico do petróleo e dos petrodólares) — a tal ponto que, em alguns momentos, angariou o apoio soviético. Desde a época do “Lar Judeu” a nova sociedade desenvolveu características extremamente originais, combinando experiências socialistas (fazendas coletivas ou “kibutzim”, sindicalismo extremamente forte) com a economia de mercado desenvolvida nas regiões urbanas. Em sua fase inicial, o país acelerou a recuperação de terras inférteis, construiu cidades em regiões abandonadas há séculos, iniciou o povoamento do deserto do Neguev, modernizou a agricultura, otimizou a irrigação e o aproveitamento da energia solar. Atualmente, as pesquisas progridem no campo da tecnologia de ponta, principalmente em informática e medicina. O número de cientistas israelenses reconhecidos internacionalmente é surpreendente se forem consideradas as pequenas dimensões e a ínfima população do país.

Do ponto de vista político, trata-se do único regime democrático do Oriente Médio. Enquanto as minorias religiosas e étnicas, bem como as mulheres, conhecem graus extremos de discriminação e opressão por parte das ditaduras da região, na “entidade sionista” há uma proliferação de partidos políticos, representando os interesses dos seus atuais sete milhões de habitantes. Israel foi governada ininterruptamente por uma coalizão trabalhista desde sua fundação até 1973 (um quarto de século) e depois desse período alternou coalizões governamentais de centro direita e centro esquerda. A esquerda israelense é representada por vários partidos, inclusive o comunista. Jamais algum agrupação política foi declarada ilegal e precisou passar à clandestinidade — mesmo as que se declaram abertamente anti-sionistas. Não há termo de comparação entre a vida política israelense e a dos países governados pelas ditaduras do Oriente Médio, aos quais as milícias terroristas ditas palestinas se reportam.

Que a esquerda consiga interpretar o conflito do Oriente Médio de acordo com a camisa de força ideológica “esquerda vs direita” ou “colonialismo vs nacionalismo” constitui uma façanha do ponto de vista lógico. Já em termos dos aspectos subjetivos envolvidos, não é tão difícil de entender.

Os sucessivos fracassos do socialismo real fizeram com que os militantes de esquerda perdessem a inocência. Para quem guiou a sua vida de acordo com a esperança de um mundo melhor, prometido pela teoria marxista e fundado na crença de que o partido comunista e suas variantes constituíam a única alternativa válida para a barbárie capitalista, entrar em contato com o perfil menos fotogênico dos regimes ditos socialistas, como a indústria de vendas de órgãos para transplante da República Popular da China, o Gulag soviético, a corrupção do governo romeno, e uma infinidade de etcéteras, sem falar da falta de segurança das usinas nucleares, da industrialização selvagem e poluidora, da necessidade de construir um muro para impedir a fuga da RDA em direção a Berlim ocidental, deve ter representado uma crise pessoal sem precedentes— algo como perder o chão sob os pés.

Enquanto isso, nos EUA ocorria um movimento liberalizante, marcado pela vitória da luta contra a discriminação racial, a oposição à guerra do Vietnam e a crítica interna ao apoio oficial dado pelo governo às ditaduras militares latino-americanas. Em um espaço de tempo muito curto, os atores deixaram de representar os papéis tradicionalmente previstos pela cartilha do militante.

Nesse contexto, Israel é uma tábua de salvação para as vítimas do naufrágio ideológico. O colossal iceberg das decepções promovidas pelo socialismo real produziu um estrago considerável nas convicções da esquerda. O anti-sionismo é convocado para ressuscitar a fé despedaçada. Objeto de uma operação estética pelo avesso, o estado judeu é deformado com o fim de dar-lhe o “physique du rôle” adequado para representar todos os demônios da esquerda. Em decorrência, uma nova crença, ardentemente professada, fará da “luta contra a ocupação israelense” a causa por excelência na época das ilusões perdidas.

Israel é estigmatizada como “braço do imperialismo norte-americano”, herdeira do colonialismo; Sharon fez as vezes de caudilho latino-americano transplantado para o Oriente Médio, misto de Trujillo, Batista, Somoza, Strossner, Videla, Pinochet; invoca-se a matança de Sabra e Chatila, perpetrada por Elie Hobeika, líder da milícia falangista cristã, para justificar a acusação de genocídio; a barreira de defesa contra o terrorismo é equiparada ao muro de Berlim , embora sua função seja exatamente a oposta ; Arafat foi travestido de herói combatente do movimento de libertação nacional, embora jamais tenha participado de uma escaramuça sequer. (Correspondentemente, os “progressistas” não fazem qualquer referência à imensa fortuna reunida pelo presidente da Autoridade Palestina, objeto de uma disputa acirrada entre a sua viúva e o primeiro escalão da OLP).

A esquerda fecha os olhos diante das evidências mais do que palpáveis de que a estratégia dos “militantes” (nome dado aos terroristas, remunerados por produção) é simultaneamente atingir os civis israelenses e usar os civis árabes como escudo, para multiplicar as baixas que, na peculiar contabilidade dos politicamente corretos, serão finalmente debitadas a Israel. A mídia anti-sionista repete invariavelmente o mesmo clichê, comentando que a reação israelense aos atentados é contraproducente porque gera mais mortes. Passa rapidamente do argumento capcioso da equivalência moral (“agressão é agressão, venha de onde vier”) para a responsabilização de Israel pelo que costuma chamar “ciclo de violência”. É impossível não pensar que se trata da versão atualizada do famoso “líbelo de sangue”, a acusação que imputava aos judeus a utilização do sangue de crianças cristãs para fazer o pão ázimo da Páscoa. Efetivamente, e para não deixar a relação no plano da mera sutileza, em um concurso de cartoons realizado na Inglaterra, o desenho vencedor, inspirado no conhecido quadro de Goya, retrata Sharon como Saturno (Cronos), devorando uma criança palestina.

Os três momentos constitutivos do mito da ocupação já alcançaram o estatuto do ponto pacífico, ilustrando assim a famosa tese de Goebbels de que uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Atribui-se a Abraham Lincoln a afirmação oposta: “Pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas não enganar todas as pessoas o tempo todo”.

O primeiro enunciado do mito —que os judeus compraram e/ou tomaram as terras dos fellahin (camponeses) árabes durante as décadas que antecederam a Partilha — não somente é demonstravelmente falso como constitui a inversão exata dos acontecimentos. Ainda que a administração britânica tenha evitado registrar o movimento da população árabe que habitava as regiões vizinhas à do Mandato (1920-1948) em direção à região beneficiada pela infra-estrutura criada pelos imigrantes judeus, as evidências disponíveis são insofismáveis . O atual território do Estado de Israel foi objeto de um duplo processo migratório, o dos próprios judeus europeus (em conjunto com uma pequena quantidade de judeus procedentes de países árabes) e o de contingentes populacionais árabes provenientes do Líbano, Síria, Jordânia e Egito. Embora o número exato dessa migração interna não tenha sido registrada, há dados suficientes para afirmar que a quantidade de habitantes árabes da então Palestina foi multiplicado por cinco no período que vai do começo do século XX até 1948, quando chega a aproximadamente um milhão de habitantes. Apenas a alta taxa de nascimentos, auxiliada pela infra-estrutura sanitária criada pelos judeus, que diminuiu significativamente a mortalidade infantil, não explicaria um aumento tão exponencial.

O crescimento da população árabe obedeceu às mesmas razões atualmente responsáveis pelo movimento populacional de Gaza e da Margem Ocidental em direção a Israel. Uma das primeiras e mais óbvias leis da ciência demográfica estabelece que o desenvolvimento econômico gera deslocamentos populacionais de regiões próximas em comparativo estado de estagnação. A atração exercida por melhores condições de vida metaforiza a gravidade newtoniana. É extremamente provável que, visto a permissividade das autoridades do Mandato em relação à imigração árabe pari passu com a correspondente restrição à imigração judaica, a quantidade de trabalhadores das regiões vizinhas que ingressou na Palestina Britânica em busca de melhores condições de vida tenha superado a de judeus, cuja absorção foi submetida a quotas rígidas. Além da duplicidade da administração inglesa, crescentemente influenciada pela pressão das lideranças árabes a partir da década de 20, é muito mais fácil vigiar as costas e o desembarque de navios do que fronteiras terrestres. O Mandato Britânico, apesar de ter sido encarregado pela Liga das Nações da implementação do Lar Judeu, condicionou a entrada dos imigrantes à existência de uma estrutura econômica capaz de garantir sua absorção, apesar de que o investimento financeiro estável e a sólida infra-estrutura criada pela comunidade judaica ofereciam trabalho e moradia para os recém chegados. Em relação à imigração das regiões vizinhas, nenhuma medida limitativa foi tomada, o que explica inclusive o caráter deliberado da política de não controlar o movimento populacional nas fronteiras.

A política britânica em relação à imigração judaica é diretamente responsável por centenas de milhares de mortes. A Comissão Peel, que em 1937 foi encarregada de investigar as razões da chamada revolta árabe, recomendou que durante os anos de 1939 a 1943 a taxa de imigrantes judeus fosse reduzida a 12 mil por ano, justamente na época em que a “solução final” nazista foi posta em marcha. Os distúrbios anti-judaicos de 1920/1921 já haviam levado a uma decisão semelhante. Em 1922, o primeiro dos “White Papers”, expedido por sir Winston Churchill, então titular do Foreign Office , formulou a restrição inicial à imigração judaica, a pretexto das limitações referentes à capacidade econômica de absorção. Mais significativamente ainda, o documento separou da então Palestina, em princípio acessível aos assentamentos judaicos, toda a região da margem oriental do Rio Jordão, com a finalidade de estabelecer o Reino da Jordânia, outorgado a um dos filhos do aliado na guerra contra o Império Otomano, o ‘sherif’ Hussein, da dinastia Hachemita. O território jordaniano foi proibido ao assentamento judaico, antecipando a mesma decisão por parte da Autoridade Palestina.

Todas as alegações da versão inicial do mito cedem diante do mais elementar exame das evidências. Ao invés de tomar a terra dos camponeses árabes, os imigrantes judeus criaram condições que possibilitaram um considerável afluxo das regiões vizinhas para a Palestina Britânica, enquanto a própria imigração judaica sofria restrições. Ao invés de prejudicar os árabes da região, o estabelecimento da infra-estrutura econômica e sanitária favoreceu consideravelmente tanto a população já estabelecida como os recém chegados. Isso é comprovado pela diminuição significativa da mortalidade infantil e a correspondente elevação do padrão de vida, expresso pelo aumento de segurança, mercado de trabalho e de comércio. Os únicos prejudicados com as notáveis transformações geradas pela presença judaica foram os beneficiários do status quo, ou seja, a classe dominante local, cuja relação com os fellahin sempre se caracterizou pela opressão e a exploração econômica. Essa conclusão é tão válida para descrever a época em pauta como a situação atual. A oposição à existência de Israel contempla os interesses da camada dominante de uma sociedade cuja disparidade de renda dificilmente encontra paralelo.

O segundo enunciado do mito é ainda mais frágil. A afirmação de que os judeus expulsaram a população árabe em 1948 criando o problema dos refugiados, somente solucionável quando puderem retornar a seus lares, omite as causas e as conseqüências do referido deslocamento populacional — ou seja, a declaração de guerra a Israel e a correspondente invasão por parte dos exércitos das monarquias árabes. A intenção abertamente proclamada de exterminar a população judaica, concretizada em cada povoado tomado e com relação a cada prisioneiro — combatente ou civil —capturado, já seriam suficientes para desautorizar qualquer alegação do gênero.

Em acréscimo, é preciso considerar que nas poucas ocasiões em que combatentes judeus forçaram a população árabe a deixar suas aldeias, esse gesto, por lamentável que seja, obedeceu a um imperativo militar e só pode ser julgado com isenção se forem levadas em conta as circunstâncias. Para os judeus, tratava-se de uma questão de sobrevivência, o que é demonstrado pelos assassinatos a sangue frio, seguidos de mutilação de cadáveres, cometidos pelos soldados dos exércitos invasores. Do ponto de vista ético, mais uma vez, não há como deixar de constatar que o comportamento das tropas judaicas foi incomparavelmente mais civilizado do que o de seus inimigos. Poucas manifestações de hipocrisia podem ser comparadas à acusação da expulsão da população árabe de Israel justamente por parte daqueles cuja intenção de extermínio jamais foi escondida — nem na ocasião, nem atualmente.

Mesmo que se quisesse dar um mínimo de crédito ao argumento da expulsão, é inevitável concluir que entre expulsar e assassinar há uma diferença incomensurável. Mais importante ainda é a constatação de que jamais houve uma política de expulsão da população árabe por parte do estado judeu, nem na ocasião, nem atualmente. Um quinto da população de Israel é árabe. Por outro lado, a alegação central da segunda versão do mito transgride mais uma lei demográfica bem conhecida. A população civil abandona regiões conflagradas, desde que tenha meios para fazê-lo. Era justamente o que estava ao alcance dos árabes residentes nas áreas designadas para constituir o estado judeu, cuja maioria era constituída por imigrantes recentes ou descendentes de imigrantes provenientes das regiões vizinhas e que, portanto, tinham como refugiar-se durante a vigência da luta. Ainda é preciso considerar que, segundo os costumes da região, os vencidos são exterminados — exatamente o que os atacantes pretendiam fazer com os judeus. O temor de sofrer esse destino caso os exércitos invasores fossem derrotados também influenciou o deslocamento de parte da população árabe. Finalmente, há vários registros de que os comandantes militares pediram à população árabe que deixasse o terreno livre para o ingresso de suas forças.

Como se não bastasse, também com relação a esse aspecto do conflito evidencia-se o uso da estratégia de acusar Israel por aquilo que é efetivamente praticado pelos seus detratores. Durante a década de 50 aproximadamente 750 mil judeus foram expulsos dos países árabes —Marrocos, Tunísia, Egito, Iêmen, Iraque, Síria, Líbia, Emiratos — e tiveram os seus bens confiscados. As comunidades judaicas desses países estavam estabelecidas há vários séculos, em certos casos há mais de um milênio. Os judeus viviam sob um regime especial — a “dhimitude” , segundo o qual a permissão para que o infiel resida em um país muçulmano implica em aceitar a condição de cidadão de segunda classe. Durante o processo de expulsão, que representou a punição dos judeus pela criação do Estado de Israel, prisões, torturas, assassinatos e condenações sumárias aconteceram em abundância. Tampouco há qualquer menção desses fatos, mais do que comprovados, por parte da esquerda anti-sionista.

A re-escritura da guerra de 1948 é em tudo e por tudo semelhante à negação do Holocausto. Tem-se aqui uma notável conjunção entre as concepções da direita e da esquerda. A direita recusa as inegáveis evidências da solução final, como as leis raciais, os campos de concentração, as câmaras de gás, as valas repletas de cadáveres, os guetos; a esquerda omite os ataques a judeus na Palestina Britânica perpetrados em 1920, 21, 29, 30, 36, 39, tanto quanto a declaração de guerra das monarquias árabes em 1948. Muito menos menciona a sua finalidade, proclamada aos quatro ventos: a destruição de Israel e o extermínio dos judeus. As motivações da direita anti-semita e da esquerda anti-sionista combinam-se harmoniosamente. Trata-se de culpar a minoria judaica da diáspora pelas crises nacionais e responsabilizar a existência de um país minúsculo, Israel, pelas internacionais. Assim ficam plenamente justificadas tanto a discriminação e as perseguições contra os judeus, que visam seu extermínio, como o terrorismo e as guerras contra Israel, que visam destruí-la. O encontro entre Haj Amin El Husseini e Adolf Hitler, em 1941, representa a conjunção perfeita entre o anti-sionismo e o anti-semitismo. Não há como deixar de constatar que o substituto de Hitler, nessa parceria, é a esquerda anti-sionista.

Correspondentemente, o Mufti de Jerusalém tem como sucessor Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, que representa a mesma ligação intrínseca entre anti-semitismo e anti-sionismo. Arauto mor da negação do Holocausto concretizado e defensor mor do Holocausto pretendido, propõe-se aniquilar os seis milhões — número emblemático — de judeus israelenses. É também o paladino do anti-americanismo, e nessa condição está a salvo de qualquer crítica ou questionamento por parte da esquerda oficial, a esquerda anti-sionista.

Da mesma forma que a segunda versão do mito anti-sionista omite as causas da guerra de 1948, atribuindo o confronto à intenção de expulsar os árabes residentes nas regiões de soberania judaica, alegação que encobre simultaneamente as causas do conflito e do deslocamento populacional, a terceira versão apresenta a guerra de 1967 como exemplo máximo do expansionismo sionista. Nesse intuito, os historiadores revisionistas que se proclamam de esquerda, numa operação em tudo e por tudo paralela à dos negadores do Holocausto, omitem e distorcem as evidências mais insofismáveis, principalmente a finalidade das ditaduras militares egípcia e síria que iniciaram as hostilidades— ou seja, mais uma vez a destruição de Israel e o aniquilamento de seus cidadãos.

No relato do revisionismo histórico, não se menciona a decisão de Nasser de asfixiar Israel impedindo a passagem de navios pelo Estreito de Tiran, rota pela qual o país era abastecido de petróleo, nem sua ordem de que o contingente da ONU sediado no Sinai fosse retirado. Os revisionistas tampouco se referem ao avanço das tropas egípcias sobre a península, a aliança com a Síria, a entrada em prontidão dos respectivos exércitos e os discursos diários augurando a iminente destruição da “entidade sionista”. O pedido de Levi Eshkol, primeiro ministro de Israel, ao Rei Hussein, da Jordânia, para que não se aliasse à coligação sírio-egípcia, é ignorado em todas as descrições assinadas pelo anti-sionismo. Tampouco consta da respectiva narrativa que Hussein recusou a proposta; Israel foi atacada pelas forças jordanianas justamente em sua região mais vulnerável, a central, “cintura” estreita do país, abrindo uma terceira frente.

A razão pela qual a chamada Guerra dos Seis Dias é relatada pela esquerda de maneira tão peculiar não chega a constituir um enigma indecifrável. Tanto a Síria como o Egito eram clientes militares e aliados da União Soviética. O revisionismo histórico segue fielmente o modus operandi clássico dos regimes em que não existe qualquer ponto de vista a não ser o do governo. A esquerda oficial inverte os fatos e recorre a uma semântica inusitada para que o papel de agressor seja atribuído a Israel. Reconhecer que a pátria do socialismo, em nome de seus interesses de estado, armou e instou Gamal Abdel Nasser e Hafez Assad, líderes de governos ditatoriais, a destruir um país democrático, integrante da ONU , implica examinar os fatos de maneira isenta, algo aparentemente inacessível para a esquerda oficial.

Entretanto, a aliança com a Síria e o Egito, feita sem a menor consideração pelos militantes comunistas e socialistas desses países, aprisionados, torturados e mortos, obedeceu a uma decisão estratégica nada irrelevante do Kremlin. A eventual derrota e destruição de Israel outorgaria às ditaduras egípcia e síria prestígio suficiente para promover, nos países petrolíferos (Iraque, Irã, Arábia Saudita, Emiratos) uma intensa mobilização, nos quartéis e nas ruas, capaz de ocasionar, a curto ou médio prazo, a derrocada dos regimes pró-ocidentais. Aconteceu justamente o contrário. A Guerra dos Seis Dias deu início ao processo que levou o fundamentalismo islâmico ao poder no Irã e a constituir a força popular mais marcante nos países árabes.

A atitude atual da esquerda em relação a Israel é exatamente igual à das potências européias face à Tchecoslováquia em 1938. Quando, um ano depois do Acordo de Munique, a Polônia, com quem Inglaterra e França haviam celebrado um pacto de defesa, foi invadida, Chamberlain e Daladier finalmente compreenderam que o nazismo não se limitaria a atacar a União Soviética mas tinha por primeiro objetivo a hegemonia no continente. Para a esquerda, desde 1967, Israel tornou-se sacrificável em nome do mesmo princípio — a necessidade de golpear os EUA. Levando em conta que parte importante do armamento israelense provinha do Ocidente, principalmente França e Estados Unidos, o conflito do Oriente Médio adquiriu o contorno de uma guerra entre o capitalismo e o socialismo, em que o pacto de Varsóvia e a NATO testavam seu arsenal por procuração.

Para a esquerda, a situação do povo sob os regimes ditatoriais das nações árabes e o contraste com a vida política israelense, incluindo a condição dos cidadãos árabes israelenses, era e permanece totalmente negligenciável, já que o objetivo prioritário se resume à vitória sobre o capitalismo — representado pelos Estados Unidos. Desse ponto de vista, o Oriente Médio é considerado como cenário de um conflito localizado cujo resultado ajudará a decidir o embate entre o Bem (socialista) e o Mal (capitalista) — uma continuação da guerra do Vietnã.

Se em 1967 e 1973 o campo progressista foi capaz de desconsiderar até mesmo o dever de solidariedade para com os militantes de esquerda trancafiados nas prisões sírias e egípcias, a nova estratégia dos regimes ditatoriais do Oriente Médio, representados pela Liga Árabe, teria tudo para ser bem sucedida. Após a quarta derrota militar consecutiva o confronto entre exércitos foi substituído pelo terror, que antes disso constituía um meio auxiliar. Apresentado como “resistência face à ocupação”, o terrorismo receberia o apoio explícito ou implícito da esquerda, conforme a moderação ou o radicalismo da corrente, principalmente após a dissolução da União Soviética, cuja função de oposição aos EUA o establishment progressista passou a desempenhar.

É incomum que a massa crítica de uma potência possa ser substituída dessa maneira, mas não convém desprezar a importância da vasta rede de ideólogos, militantes e simpatizantes estrategicamente situados em postos-chave na mídia e nos partidos, sindicatos e associações acadêmicas. A partir dessa base, o anti-sionismo alastrou-se rapidamente e conquistou espaço junto a parlamentares dos blocos do centro e da direita democrática, principalmente nos países europeus dotados de minoria muçulmana com peso eleitoral. A importância do petróleo e dos petrodólares somou-se enquanto fator aliciador, arregimentando para o anti-sionismo um setor influente do mundo empresarial.

O encerramento da guerra fria retirou o conflito do âmbito dos interesses nacionais e das “reuniões de cúpula”, transferindo o embate ideológico para o terreno da opinião pública, em que a mídia ocupa um lugar central, principalmente numa época em que a leitura limita-se geralmente às manchetes, algumas frases adjacentes e as legendas sob as fotografias. A grande maioria dos intelectuais entendeu que seu papel consistia em criticar a política internacional da Casa Branca, para diminuir o imenso poder que a desestruturação da União Soviética concentrara em mãos americanas. Israel teria um papel central a desempenhar, desde que sua imagem fosse associada à África do Sul, ao Vietnã do Sul e ao nazismo. Daí as equiparações entre sionismo, racismo, imperialismo e genocídio, seguida pela “caudilhização” de Sharon, travestido de ditador latino-americano.

Para tanto, foi necessário estender e aprofundar as omissões e distorções anteriores, elaboradas no âmbito das duas primeiras formulações da narrativa anti-sionista. A esquerda acompanhou passo a passo a nova estratégia das ditaduras do Oriente Médio, que haviam sido fortalecidas consideravelmente pela revolução islâmica iraniana (1979). A dissolução da União Soviética colocou a esquerda sob a tutela do fundamentalismo islâmico. Formulou-se o conceito de multiculturalismo para justificar práticas e costumes muçulmanos contra minorias e a jihad passou a ser interpretada como reação merecida pelos antigos colonizadores.

A Organização de Libertação da Palestina, pouco depois da guerra de 1967, que resultou no fim do domínio egípcio sobre Gaza, base operacional importante para o terror, perdeu igualmente o território jordaniano após confronto com o Rei Hussein . O comando e as forças da OLP instalaram-se no Sul do Líbano, que foi transformado em enclave soberano. Os constantes ataques ao norte de Israel culminaram na invasão israelense (1982), que teria levado ao aprisionamento da liderança da OLP, inclusive Arafat, não fosse a intervenção norte-americana, no âmbito de uma política de apaziguamento. O acordo que interrompeu as hostilidades resultou na retirada da OLP e no exílio da sua liderança na Tunísia.

Um dos aspectos mais significativos do conflito entre o exército israelense e a OLP em Beirute (1982) foi a utilização da população libanesa como escudo. Estratégia deliberada ou recurso ao qual se lançou mão devido às circunstâncias, seja como for o terrorismo descobriu a eficácia desse gesto, cujos dividendos revelaram-se inexcedíveis. Daí em diante, as organizações humanitárias , verdadeiro hard core da esquerda, nunca deixaram de apontar o exército israelense como responsável pela morte de civis sempre que estes eram atingidos enquanto cumpriam involuntariamente a função de reféns. Correspondentemente, as ações terroristas, deliberadamente dirigidas contra cidadãos israelenses em suas atividades quotidianas, beneficiavam-se de um total silêncio. O êxito da tática, interpretada como aplicação da conhecida metáfora de Ho Chi Min ao conflito do Oriente Médio (“o revolucionário deve ser como um peixe no mar do povo”), angariou ainda mais o apoio da esquerda anti-sionista, que jamais revelou a menor propensão em diferenciar a luta entre combatentes armados do assassinato de civis, seja diretamente, seja através da sua utilização como reféns — desde que interesses maiores o exigissem.

Esse foi o ponto de inflexão que selou a aliança entre a corrente majoritária da esquerda ocidental e as milícias terroristas do Oriente Médio. A defesa dos interesses de estado e sua sobreposição a considerações ideológicas, por parte do Kremlin, afastou os ideólogos mais conseqüentes da esquerda, que defenderam a alternativa da luta armada. Nasceu assim a “camaradagem de armas”, unindo IRA, ETA, Sendero Luminoso, Tupamaros, Montoneros, Brigadas Vermelhas e a Facção Baader-Meinhof. As milícias palestinas foram integradas ao grupo. Por outro lado, a morte de civis usados como escudo permitia dissimular sob uma capa humanista o verdadeiro motivo da adesão da esquerda ao terror anti-sionista: o anti-americanismo. Surgia o critério “dois pesos, duas medidas”, que seria aplicado pela mídia com todo o rigor possível. As suas regras, mais tácitas do que explícitas, mas nem por isso menos eficazes, estipulavam que o assassinato de civis israelenses receberia um tratamento miniaturizado, a expressão “ataque terrorista” seria precedida pelo adjetivo “suposto” e o substantivo “militante” substituiria “terrorista”, mesmo quando as vítimas fossem pessoas desarmadas.

Compensatoriamente, a descrição das ações militares israelenses prescindiria dos respectivos motivos e as informações sobre baixas, se fornecidas por fontes ligadas às milícias, seriam consideradas verossímeis. Além disso, ganhariam todo o destaque possível; eventuais desmentidos e retratações, pelo contrário, raramente seriam dados a conhecer e, quando não fosse possível evitá-lo, confinados a espaços mínimos nas páginas internas. Há inúmeros exemplos que podem ilustrar a referida prática, e um dos mais marcantes é a notícia sobre o massacre de Jenin. Durante a operação Escudo Defensivo, desencadeada em resposta a uma das campanhas terroristas mais mortíferas , o exército israelense teria causado a morte de cinco mil pessoas, a grande maioria civis, entrincheirados nessa cidade, conhecida como principal sede do terror. As manchetes alardearam o morticínio sem qualquer verificação. Depois de uma semana, os números se alteraram: as vítimas dos carrascos sionistas passaram de cinco mil a quinhentas. Duas semanas depois, observadores internacionais, ciosos de documentar a matança, puderam enfim examinar o local dos acontecimentos e constataram que cinqüenta e duas pessoas haviam morrido na ação israelense: vinte e nove combatentes palestinos e vinte e três soldados.

Assim, frustrou-se a tentativa de realimentar a seção genocídio do mito da ocupação, inaugurada com a atribuição das mortes de Sabra e Chatila a Israel. Mas, de fato, a população local foi usada como escudo e não fosse o cuidado do exército e o sacrifício de 23 soldados e oficiais para evitar que civis corressem riscos, o número de baixas corresponderia ao que havia sido planejado por Arafat e ansiosamente esperado pela esquerda. Desnecessário dizer que a retratação, quando ocorreu, limitou-se a pequenos textos dos quais a maioria dos leitores jamais tomou conhecimento.

Trata-se do procedimento habitual da “grande imprensa” em relação a Israel. A “retratação” em questão constitui por sua vez o melhor auto-retrato possível dos editores e da respectiva ética jornalística.

A mortandade causada pela campanha terrorista da OLP a partir do sul do Líbano, entre 1970 e 1978, também mostrou a eficácia da estratégia de ocupar as fronteiras de Israel, subtraindo-as à soberania libanesa, jordaniana e egípcia, graças ao que as células terroristas, localizadas em meio à população, tornavam a ação do exército israelense extremamente difícil e sempre sujeita à condenação internacional, preparada de antemão e orquestrada pela mídia.

A estratégia foi usada mais uma vez no Líbano, em 2006, desta vez de forma superlativa. A substituição da OLP pelo Hezbollah deu origem a uma segunda versão da guerra de 1982. Os acordos internacionais e as tropas da ONU não impediram os ataques do grupo financiado e armado pelo Irã, via Síria, e a conflagração mobilizou novamente o coro humanista, cuja partitura tampouco se alterou: a responsabilidade pelo conflito foi pouco a pouco sendo transferida para Israel, apesar de todas as provas em contrário. Os bombardeios indiscriminados de cidades israelenses foram ignorados bem como o fato de que as plataformas de onde eram lançados os foguetes se localizavam em áreas de grande densidade populacional, preferentemente escolas, moradias e locais comerciais. Fotos maquiadas e utilização de cadáveres para fins de propaganda, em cenas montadas, ganharam espaço nas primeiras páginas da grande imprensa e nas reportagens de televisão. Os desmentidos e ressalvas aconteceram muito tempo depois, em espaço e tempo ínfimos, como de costume.

A estratégia de sacrificar a população civil árabe, usando-a como escudo, é mais do que patente, mas a esquerda oficial desconsidera absolutamente todas as evidências. A razão dessa atitude jaz em que a finalidade de justificar a equação “sionismo = imperialismo = nazismo” constitui, para o campo progressista, um ponto de extrema importância em sua luta contra os EUA. Assim, atribui-se a Israel exatamente o que é praticado pelas milícias terroristas. O confronto entre forças armadas não propiciava essa possibilidade. Pelo contrário; nesse caso, Israel aparece como uma nação de 7 milhões de habitantes defendendo-se do mundo muçulmano, imensamente maior e dotado do poder conferido pelo petróleo. A nova estratégia permite à esquerda enfatizar a aliança entre EUA e Israel, ao mesmo tempo em que apresenta as milícias como representantes do povo árabe — escamoteando os seus patrocinadores, ou seja, o Irã, a Liga Árabe e agora, novamente, a Rússia de Putin, cujos interesses de estado são idênticos aos da URSS, o que mostra talvez como a questão ideológica, ao longo da guerra fria, caiu a um plano irrelevante.

Na perspectiva de seus críticos, Israel somente poderia evitar essa imagem de agressor desde que aceitasse os ataques sem defender-se, atitude interpretada, por sua vez, como metáfora de que “o próprio sionismo admite sua culpa e sabe que não tem defesa”.

A mídia, cujos editores, redatores, âncoras, fotógrafos, cartunistas e comentaristas pertencem em esmagadora maioria à coalizão que reúne a esquerda e os que buscam a aprovação da opinião pública (ou seja, os politicamente corretos), já está mais do que convencida da culpa de Israel. A escolha e o ângulo das fotografias, o tom consternado dos apresentadores, o espaço concedido às matérias, a posição política e ideológica dos comentaristas e “experts” convidados para entrevistas e debates, enfim, tudo o que tipifica a concepção responsável pelo enquadramento do conflito, adquire um aspecto quase cômico para o observador dotado de senso de humor. A solenidade santimoniosa do ritual incriminatório lembra um processo inquisitorial sem fogueira, até mesmo no que se refere ao depoimento dos judeus anti-sionistas. Que costumam, aliás, ser os críticos mais impiedosos de Israel, como convém aos que precisam convencer os algozes de sua inocência.

Mas o grande argumento da terceira versão do mito da ocupação é a acusação de que Israel apropriou-se de terras palestinas, após 1967. Trata-se da tese do expansionismo sionista.

Para sustentar esse enfoque é preciso, em primeiro lugar, recorrer à amnésia. A guerra dos Seis Dias confere a pior das imagens possíveis à União Soviética, tanto no sentido de apoiar ditaduras reacionárias em benefício de seus interesses de estado, como no que se refere à péssima avaliação da inteligência russa em relação à capacidade de combate das forças armadas dos estados clientes. A derrota síria, egípcia e jordaniana constituiu também uma derrota soviética, mas nesse caso tanto militar como moral.

Portanto, a origem da presença israelense na margem ocidental e em Gaza é absolutamente desconsiderada pela esquerda, que segue fielmente o procedimento stalinista de alterar os fatos históricos, sempre que necessário. Trata-se de uma liberdade menos poética do que política em relação às evidências históricas, mas a esquerda oficial não tem qualquer problema em usar esse recurso.

A segunda omissão refere-se à situação de Gaza e da Cisjordânia após 1948. Na Partilha decidida pela ONU em 1947, esses territórios haviam sido adjudicados quase totalmente ao estado árabe que deveria formar-se com a divisão do que restara do Mandato Britânico, após a outorga de 77% de sua extensão ao Emir Abdullah, da dinastia Hachemita, para a formação do Reino da Jordânia.

Após a guerra, o Egito apossou-se da Faixa de Gaza e a Jordânia da margem ocidental e do setor oriental de Jerusalém, a cidade velha. De 1948 a 1967 não houve qualquer protesto, nem das lideranças locais de Gaza e da margem ocidental, nem dos países da Liga Árabe, em relação à ocupação egípcia e jordaniana. Nesse período, tanto Gaza como a margem ocidental do Jordão foram utilizadas como base das milícias terroristas que realizavam incursões em território israelense.

O movimento pela “libertação” dos “territórios ocupados” representa a reação da Liga Árabe à assinatura de tratados de paz entre Israel e Egito (1979) e Israel e Jordânia (1994). A campanha pela criação de um estado palestino em Gaza e na margem ocidental foi a maneira encontrada pelas ditaduras do Oriente Médio para devolver a essas regiões a função de fustigar Israel incessantemente. Em 1988 a Transjordânia voltou a transformar-se em Jordânia, renunciando à soberania sobre a margem ocidental. Durante as negociações com Israel, o Egito recusou a devolução da Faixa de Gaza.

Criaram-se assim as condições para desencadear a campanha pelo estabelecimento de um estado palestino, cujo único representante, segundo determinação da Liga Árabe em 1974, um ano após a última derrota militar, seria a Organização de Libertação da Palestina, liderada por Arafat. Daí em diante, tratava-se de fazer com que Israel aceitasse negociar com a OLP e transferisse a Cisjordânia e Gaza à organização presidida por Arafat.

A decisão da Liga Árabe mostra que o povo palestino não desempenhou qualquer papel em relação à escolha de sua liderança, nem, portanto, das diretrizes políticas. Por outro lado, fica evidente o motivo pelo qual o Egito e a Jordânia repassaram o território fronteiriço para uma organização de cujo estatuto constava o objetivo de destruir Israel. Com uma das mãos assinaram a paz, com a outra criaram as condições para que a guerra continuasse – como guerra de atrito, agora a cargo das milícias terroristas com liberdade de ação sob a Autoridade Palestina.

A terceira grande omissão da esquerda, freqüentemente acompanhada de distorções, refere-se às ofertas israelenses durante as negociações de paz em Camp David e Taba (2000 e 2001), precedidas pelo encontro de Madrid (1991) e o acordo de Oslo (1993), em que Israel reconhecia a OLP como representante do povo palestino, prosseguidas por negociações mediadas por Clinton, nas quais houve o famoso aperto de mão entre Itzhak Rabin e Yasser Arafat, na Casa Branca (1994) e a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Arafat, Rabin e Peres, nesse mesmo ano. A pré-condição estipulada por Rabin consistiu na retirada da cláusula referente à destruição de Israel dos estatutos da OLP, enquanto a da OLP revestiu-se de conseqüências práticas muito mais concretas e significativas: o reconhecimento de que a Faixa de Gaza e a Margem Ocidental abrigariam um estado palestino e seriam imediatamente entregues por Israel ao movimento liderado por Arafat.

Arafat e Ehud Barak, então primeiro ministro de Israel , reuniram-se em 2000 e 2001, em Camp David e Taba (Egito). O primeiro ministro israelense ofereceu a entrega de 94% a 96% dos territórios da margem ocidental, bem como 100% da Faixa de Gaza, além de soberania sobre Jerusalém Oriental (desde que os judeus tivessem direito de acesso ao Muro das Lamentações), mais uma compensação territorial pela diminuta percentagem (4 a 6%) que Israel manteria em seu poder por razões de segurança. Arafat recusou, exigindo o direito de retorno para os refugiados da guerra de 1948 e seus descendentes (aproximadamente 4 milhões de pessoas, segundo a ONU, ou 6 milhões, de acordo com as estatísticas da OLP e da Liga Árabe).

Diante de tais evidências, faz-se preciso um esforço considerável para permanecer acusando Israel de expansionismo e belicismo, mas o revisionismo histórico mostrou-se à altura da tarefa. A imagem que as correntes hegemônicas da esquerda desenvolveram em relação a Israel só pode ser modificada ao preço de um questionamento evitado a todo custo. De nada adiantou, nesse sentido, a devolução do Sinai, cujas dimensões excedem a do próprio estado judeu e que fora conquistado em guerra de defesa diante de uma ameaça de extermínio. Trata-se do único caso na história em que o vencedor abdicou das vantagens legitimamente obtidas num conflito em que a derrota teria significado sua destruição.

A paz no Oriente Médio não convém absolutamente à esquerda oficial, em cuja concepção o conflito preenche uma função essencial, a de reassegurar os militantes da importância da guerra sem quartel contra o inimigo de classe, retratado com todos os paramentos que o tornam execrável: colonialismo, imperialismo, opressão, racismo e genocídio. Se para manter a militância mobilizada for necessário demonizar o sionismo e o Estado de Israel, como os nazistas haviam feito com os judeus, a esquerda, em nome de seus interesses ideológicos, aceita o preço sem hesitar.

A recusa de Arafat e a subseqüente retomada do terrorismo, travestido de luta de libertação nacional, conferem à esquerda anti-sionista o pretexto necessário para interpretar o conflito do Oriente Médio como decorrente da ocupação militar de territórios terceiro-mundistas por parte de um país pertencente ao assim chamado primeiro mundo. O discurso pretensamente ético destina-se a tornar invisível o interesse da esquerda na manutenção da beligerância e a razão de seu apoio ao terror. Conseqüentemente, Israel deverá ser responsabilizada pelo fracasso das negociações, mesmo que seja necessário, mais uma vez, alterar todas as evidências.

Os atuais mecanismos econômicos substituíram o colonialismo e o imperialismo clássicos pela globalização, cuja crítica exige a elaboração de análises capazes de descrever as características do mundo contemporâneo bem como as novas formas assumidas pela hegemonia das potências industriais, mas a esquerda tradicional não está preparada para re-examinar suas concepções e formular as críticas pertinentes às novas formas de desigualdade nas relações entre países e blocos. No plano econômico, a importância cada vez menor da mão de obra e cada vez maior da tecnologia retira da esquerda a sua base tradicional, o que acentua a crise ideológica.

Para as ditaduras do Oriente Médio a paz também é uma ameaça, mas por outros motivos. A manutenção do status quo nas sociedades que governam ditatorialmente tem como uma de suas principais justificativas a necessidade de manter a coesão interna e a mobilização contra o inimigo sionista. As ditaduras do Oriente Médio e a esquerda tradicional compartilham uma visão de mundo que têm em comum a interpretação dos desenvolvimentos tecnológicos ocorridos nas últimas décadas e suas conseqüências sócio-econômicas como uma ameaça mortal. Trata-se de concepções eminentemente conservadoras, que não hesitam em recorrer às mais severas formas de opressão, quando detêm o poder, e ao terrorismo, no plano das relações internacionais. Nesse quadro, o papel da esquerda oficial tem sido o de fornecer a respectiva justificação ideológica.

O argumento de que os assentamentos (chamados “colônias” ) são empreendimentos colonialistas, que justificam o terrorismo, chamado de “resistência armada”, constitui o cerne do mito da ocupação em sua terceira versão.

O terrorismo, porém, é muito anterior aos assentamentos. Podem-se encontrar suas raízes nos ataques de bandos armados às pequenas comunidades rurais judaicas, no começo do século XX e nos “pogroms” de 21, 22, 29, 36 a 39, em que judeus desarmados foram assassinados por turbas enfurecidas, incitadas por clérigos muçulmanos. Logo após a criação do Estado de Israel, na década de 50, os “fedayin”, provenientes de Gaza, ocupada pelo Egito, assim como grupos sediados na Jordânia, infiltravam-se para matar civis israelenses. Posteriormente, na década de 70, o terror recorreu a seqüestro de aviões e assassinatos no exterior (como o dos atletas olímpicos israelenses em Munique e o atentado contra o embaixador de Israel em Londres). O terror desencadeado pela segunda intifada atacou muito mais em Israel do que nos próprios assentamentos.

A palavra “ocupação” é usada conforme as conveniências e com toda a ambigüidade possível. As guerras movidas pelas monarquias e depois ditaduras militares árabes a Israel aparentemente se enquadravam na prática comum dos conflitos bélicos: o inimigo era representado pelas suas forças armadas. Em 1948, porém, os habitantes das povoações judaicas capturadas foram executados e em todas as guerras posteriores os líderes árabes mencionaram expressamente a intenção de destruir o país e sua população. A substituição das guerras pelo terrorismo acentuou esse procedimento. Os ataques aos judeus que moram nos assentamentos são justificados atualmente como resistência à apropriação de território palestino; os cometidos contra civis israelenses no interior da “linha verde” (fronteiras anteriores a 1967) são inseridos no âmbito da “luta de libertação nacional”, significando que todo Israel é “território ocupado”; os ataques a judeus não israelenses em outros países (algo comum atualmente na França, na Alemanha e na Inglaterra) estendem a concepção de inimigo a um grupo étnico.

Seja como for, os terroristas já estão previamente munidos das justificativas necessárias. Seus alvos se estendem da população dos assentamentos aos habitantes de Israel, e podem incluir, quando julgado necessário, israelenses, judeus e não judeus fora do Oriente Médio . Correspondentemente, a jihad ultrapassou os limites que a confinavam à estrela de Davi, atingindo também outros infiéis, cristãos e budistas, por exemplo, assim como deixou de ter Israel como objetivo exclusivo. Os atentados das Torres Gêmeas, de Madrid, de Londres, os constantes ataques na Índia, na Indonésia, nas Filipinas, em Cachemira, em Moscou, mostram que a palavra “ocupação” pode ser usada em qualquer extensão semântica para justificar o terrorismo em qualquer lugar.

As críticas feitas aos assentamentos invocam sempre o “roubo” de terra. Entretanto, o Estado de Israel não procedeu a qualquer tipo de confisco ou desapropriação. As terras nas quais foram construídos os assentamentos não eram particulares. O seu último estatuto legal está relacionado à época do Império Otomano. Nem o Mandato Britânico, concedido provisoriamente pela Liga das Nações com a finalidade de criar as condições para o estabelecimento de dois estados, um árabe e outro judeu, nem os governos jordanianos e egípcio, que exerceram a soberania de facto na região da margem ocidental e da faixa de Gaza, de 1948 a 1967, realizaram quaisquer levantamentos ou tomaram iniciativas no sentido de dar às terras não particulares o caráter de propriedade de estado. Previamente ao erguimento de cada assentamento, o governo israelense publicava editais convocatórios para que qualquer pessoa com direitos sobre a gleba pudesse reivindicar sua propriedade.

Não por acaso, as terras em questão careciam de estatuto legal. No que se refere à sua aridez e abandono, repetiu-se a situação com que os primeiros imigrantes judeus se depararam ao chegar à região, em fins do século XIX e início do século XX. Desse ponto de vista, o processo de construção de assentamentos não foi diferente do procedimento pelo qual os judeus ergueram as primeiras fazendas e povoamentos. Foi necessário, mais uma vez, estabelecer a infra-estrutura, ou seja, redes de abastecimento de água, eletricidade e estradas, que, como acontecera meio século antes, beneficiaram igualmente a população local. Só posteriormente é que o terrorismo levou Israel a pavimentar estradas exclusivas para os habitantes dos assentamentos. As redes de abastecimento de água e eletricidade elevaram substancialmente a qualidade de vida da população árabe. De pleno acordo com a tradicional política de impedir o desenvolvimento econômico e social, os governos egípcio e jordaniano não haviam investido na região.

Em conseqüência, e de acordo com o direito internacional, a margem ocidental e a Faixa de Gaza não têm sua soberania definida. A Partilha havia destinado a maioria da região a um estado árabe, mas esse estado não foi criado. Na guerra de 1948, a Judéia e a Samaria (margem ocidental do Jordão) foram tomadas pela Jordânia e a Faixa de Gaza pelo Egito, sem que, à exceção da Grã-Bretanha em relação à Jordânia, a referida apropriação obtivesse reconhecimento. Portanto, a construção de assentamentos não viola qualquer norma do direito internacional, e muito menos os direitos humanos, já que não houve deslocamento de população. Os assentamentos foram voluntariamente estabelecidos por judeus israelenses, e embora também tenham a função de aumentar a segurança de Israel, na região onde o país é mais vulnerável ao ataque terrestre, constituem estabelecimentos civis que se mantêm graças a atividade econômica não prejudicial à população árabe. E, principalmente, algo sempre escamoteado nas acusações feitas pela esquerda oficial, a construção dos assentamentos não implicou na remoção de um único habitante da Cisjordânia.

A recomendação da ONU é que sejam estabelecidas negociações entre as partes para estabelecer um estatuto legal. Foi o que aconteceu em 2000 e 2001, quando o governo Barak repetiu a proposta que Beguin havia feito no final dos anos 70 em relação ao Sinai, e que culminou com o tratado de paz entre Egito e Israel. No âmbito da estratégia “terra por paz”, Barak ofereceu o reconhecimento da soberania da Autoridade Palestina sobre toda a Judéia, Samaria (a margem ocidental do Jordão) e Gaza, com o fim de estabelecer um estado nacional, menos uma pequena porcentagem territorial (de 4% a 6%), que seria compensada com o equivalente em território israelense, bem como a soberania compartilhada sobre Jerusalém. Em troca, Arafat deveria reconhecer o Estado de Israel e comprometer-se definitivamente com o fim da beligerância, a qualquer pretexto que fosse. O resultado seria a paz, mas Arafat recusou a oferta, exigindo o retorno dos assim chamados refugiados a Israel.

Independentemente do fracasso das negociações, todas as evidências mostram que os assentamentos não prejudicam a população local, muito pelo contrário, e ainda menos constituem um obstáculo à paz. Do final da Guerra dos Seis Dias até a entrega do território à OLP, prevaleceu a cooperação entre israelenses e árabes da Cisjordânia. A esquerda oficial, no intuito de caracterizar Israel como potência colonialista, acusa o estado judeu da apropriação de terras e recursos hídricos. Entretanto, a partir de 1967 as cidades da margem ocidental e Gaza passaram por um surto de desenvolvimento inédito. Nesse período deu-se a instalação da rede de água, esgotos e eletricidade, anteriormente inferior a 30%, em praticamente todas as residências. A criação dessa infra-estrutura foi responsável por uma diminuição dramática da taxa de mortalidade infantil e promoveu, através do conseqüente incremento da produtividade, a elevação da renda per capita e do produto nacional bruto, que ultrapassaram os da Síria, Egito e demais países do Oriente Médio, somente permanecendo inferior aos das potências petrolíferas, cuja desigualdade social, porém, impede uma distribuição minimamente justa de tais benefícios. Contrastando com a situação anterior, em que não havia uma única instituição de ensino superior, foram criadas sete universidades, antes proibidas pelo governo jordaniano. A administração israelense limitou-se a cuidar da segurança das fronteiras israelenses, deixando todos os outros aspectos da vida civil a cargo das lideranças locais. O intercâmbio econômico com Israel, tanto em termos de comércio como de mercado de trabalho, elevou ainda mais os índices de desenvolvimento e qualidade de vida.

O processo em questão alarmou os regimes do Oriente Médio, similarmente ao que acontecera meio século antes em decorrência do estabelecimento do Lar Judeu. As iniciativas de paz se intensificaram, com a finalidade de impor a Israel a aceitação da OLP como única representante dos habitantes da Cisjordânia e Gaza, a partir de então denominados “palestinos”. Correspondentemente, em virtude de pressões semelhantes, a Jordânia renunciou à sua soberania sobre a região em 1988. Similarmente o Egito recusou, no âmbito das negociações de paz, retomar a soberania na Faixa de Gaza, oferecida por Israel juntamente com a devolução do Sinai. Na seqüência, a liderança da OLP, com Arafat à frente, pôde retornar da Tunísia, com a promessa de renunciar a qualquer ação armada contra Israel.

A Autoridade Palestina restaurou na margem ocidental e em Gaza o status quo característico das sociedades do Oriente Médio. A burocracia governamental assumiu o controle da economia e dos investimentos internos, impediu o desenvolvimento de uma liderança empresarial bem como a existência de associações profissionais e sindicatos autônomos, impondo o predomínio do estado sobre a sociedade nos mesmos moldes dos demais regimes autoritários da região. O desemprego resultante da queda da atividade econômica, acentuada pelo desencadeamento da campanha terrorista e o confronto com o exército israelense, aumentou a oferta da mão de obra para as milícias terroristas. As medidas tomadas por Israel para conter o terror, como bloqueios de estrada, foram então acusadas de promover a crise econômica gerada pelo governo da OLP — mediante o terrorismo e a corrupção. Os críticos de Israel, por sua vez, capitaneados pela esquerda anti-sionista, não tiveram qualquer dificuldade em atribuir o desemprego e a crise econômica à “potência ocupante”.

Outro argumento repetido pelos críticos dos assentamentos é que os mesmos inviabilizam o estabelecimento do estado palestino. Entretanto, o seu impacto territorial não excede 6% do território da margem ocidental. Os críticos assinalam que somadas as regiões previstas para a sua expansão, bem como as estradas exclusivas para os judeus, essa porcentagem subiria para mais de 10%. Mas as referidas rodovias tornaram-se imprescindíveis, visto os freqüentes ataques contra veículos com placas de Israel. Os mesmos argumentos e contra-argumentos se defrontam no caso dos bloqueios erigidos nas estradas. Israel é acusado de afetar a atividade econômica da região, estrangulando a circulação de pessoas e mercadorias. Mas todas as estatísticas referentes à relação entre bloqueios e prevenção de ataques terroristas comprovam que os bloqueios existem em resposta à atividade terrorista, impedindo com notável eficácia que homens-bomba e mensageiros com explosivos cheguem a Israel. Com referência a esse ponto, observa-se mais uma vez a inversão das evidências; Israel é acusado de obstaculizar a atividade econômica das cidades palestinas, quando é o terror que tem entre seus objetivos provocar uma crise econômica em Israel— o que efetivamente chegou a ocorrer durante a segunda intifada, causa de um decréscimo acentuado no nível dos investimentos.

Mais surpreendente ainda é que jamais tenha ocorrido à esquerda que um acordo de paz poderia resultar na manutenção dos assentamentos, sob soberania palestina. Tudo se passa como se os críticos de Israel entendessem que os governos árabes têm o direito de expulsar os judeus de seu território, como já acontecera na década de 50, da Tunísia ao Iêmen. Novamente pode observar-se a estratégia da “inversão de fatos”. Israel é acusado da “limpeza étnica” efetivamente praticada pelas ditaduras do Oriente Médio e a mesma exigência de expulsão dos judeus volta a ser feita em relação aos habitantes dos assentamentos. Tampouco consta do ideário da esquerda a denúncia do estatuto de dhimmi imposto aos não muçulmanos nas sociedades islâmicas. Verifica-se que as acusações de racismo e discriminação, dirigidas a Israel, caracterizam na verdade o estado de coisas sob as ditaduras regionais. Que a esquerda anti-sionista concorde tacitamente com tais práticas revela plenamente o teor do seu humanismo.

Em Israel, 20% da população, mais um milhão de pessoas, é de origem árabe; já a permanência dos 250 mil habitantes judeus dos assentamentos, em meio a quase 3 milhões de palestinos (ou seja, menos de 10%), é considerada inaceitável. Na peculiar concepção da esquerda e dos “politicamente corretos”, Israel, onde convivem judeus de todos os continentes, árabes muçulmanos e cristãos, drusos, circassianos bem como trabalhadores estrangeiros de várias proveniências (filipinos, chineses, tailandeses), pode ser acusada de práticas de “limpeza étnica” e “deslocamento de população”. O “multiculturalismo” da esquerda oficial consegue a façanha notável de não perceber as diretrizes políticas israelenses em relação a minorias e a proeza ainda maior de ignorar o tratamento da mesma questão por parte das ditaduras do Oriente Médio, inclusive a Autoridade Palestina. A aplicação do rótulo de “ocupantes” aos habitantes dos assentamentos, que vivem de seu trabalho e ajudaram a criar uma infra-estrutura benéfica para todos, mostra que os fatos mais evidentes podem ser facilmente distorcidos por uma concepção ideológica que se julga acima de qualquer compromisso com a realidade.

O anti-sionismo professado pelo islamismo e pelo liberalismo não constitui uma novidade.

O primeiro se insere nas políticas conservadoras de sociedades com profundas diferenças sociais que canalizam a sua aversão à mudança para a minoria judaica, perseguida enquanto representante do “estrangeiro”, metáfora por sua vez do “novo”, do “diferente”. O mesmo processo que aconteceu na Espanha feudal da Reconquista e na Rússia imperial às vésperas da revolução, motivando a Inquisição e os pogroms, repete-se no Oriente Médio. O lugar concedido aos judeus nos países muçulmanos retrata a necessidade de limitar a modernização. A violência anti-semita expressa as restrições que de tempos em tempos as sociedades conservadoras aplicam ao desenvolvimento econômico e político. A criação do Estado de Israel numa região considerada como exclusivamente islâmica, ou seja, em que apenas determinado tipo de organização sócio-econômica teria direito à existência, faz com que o estado sionista receba o mesmo tratamento dado aos judeus nas sociedades muçulmanas.

O anti-sionismo islâmico representa assim a continuação da concepção de que os judeus são dhimmis, ou seja, cidadãos de segunda classe — metáfora de que a modernização deve manter-se em plano secundário para não ameaçar a modalidade de organização hierárquica prevalecente nas sociedades muçulmanas. Nessa perspectiva, que os judeus construam uma nação e que esse país tenha características sociais, econômicas e políticas avançadas é absolutamente inaceitável. De um lado, porque se torna patente que as formações sociais concebidas segundo o modelo do feudalismo médio-oriental não são as únicas possíveis; de outro, porque a mera existência de Israel denuncia a inoperância dos governos ditatoriais da região bem como o caráter ultrapassado e ineficaz da estrutura econômica em que se apóiam. Conseqüentemente, o exemplo israelense tem como contaminar populações submetidas a condições sócio-econômicas injustas e desnecessárias, sobretudo levando em conta que a população árabe de Israel, mais de um milhão de pessoas, vive em condições incomparavelmente melhores do que os cidadãos sem direitos políticos das outras nações do Oriente Médio. Não é surpreendente, portanto, que o anti-sionismo islâmico se combine com uma forte tendência anti-semita. O tratamento dado à minoria judaica nas sociedades muçulmanas expressava uma reação diante da ameaça de transformação, que se repete em relação ao estado sionista. A classe (seria melhor dizer: a casta) dominante das sociedades islâmicas, como todo tipo de poder constituído, não aceita ser destituído.

O anti-sionismo professado pelo liberalismo tampouco difere do modelo clássico de anti-semitismo fundado na competição. A adesão de boa parte da população européia a medidas anti-semitas, principalmente as que restringiam a participação dos judeus nas atividades econômicas e nos cargos públicos, além dos obstáculos colocados à formação profissional (quotas limitadas para ingresso no ensino superior), decorriam das vantagens materiais auferidas. Similarmente, no plano das relações internacionais, a competição pela exploração, refino e distribuição de petróleo, assim como o interesse em obter os benefícios decorrentes da aplicação de petrodólares nas economias nacionais, faz com que a União Européia, os Estados Unidos, o Japão, a Rússia e a China tendam a fazer concessões crescentes às potências petrolíferas, cujas lideranças sentem-se ameaçadas pela existência de Israel.

Conseqüentemente, são constantes, praticamente ininterruptas, as pressões para que Israel abdique de medidas de segurança essenciais para impedir ações terroristas contra sua população, enquanto nada semelhante é exigido da Autoridade Palestina, totalmente desresponsabilizada pela existência das várias e proliferantes organizações terroristas existentes em seu território. Tais pressões decorrem da competição entre as potências e grupos econômicos influentes, que rivalizam pelas vantagens associadas ao petróleo e aos petrodólares. Cria-se assim uma situação inteiramente favorável à política anti-sionista das ditaduras do Oriente Médio, que mantém Israel em xeque, isolada devido aos boicotes e submetida a uma guerra de atrito constante. Dessa maneira, o perigo de contaminação é diminuído e Israel acaba sendo útil enquanto justificativa para a manutenção dos regimes ditatoriais. Nesse sentido, a destruição do estado sionista poderia ser menos interessante do que a sua permanência enquanto inimigo demonizado que justifica a permanente militarização das sociedades islâmicas.

Diferentemente, o anti-sionismo da esquerda tem bases muito mais psicológicas do que materiais. Não se descarta que, em certos casos, universidades, sindicatos e ONGs recebam generosas doações, principalmente da Arábia Saudita, como se revelou no caso da fundação dirigida por Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, cujo livro, a partir do próprio título, associa Israel ao apartheid. Mas, essencialmente, a utilidade do anti-sionismo para a esquerda é de outra natureza.

Numa época em que o fracasso dos regimes comunistas do Leste Europeu e as respectivas violações dos direitos humanos abalam fortemente as concepções econômicas e políticas associadas à economia planificada e à ditadura do proletariado, além da crescente importância auferida pela tecnologia em relação à mão de obra, a esquerda oficial transforma o seu velho adversário, o capitalismo, de modo de produção encarregado de criar as condições para a emergência do socialismo em bode expiatório pela crise moral e intelectual do marxismo tradicional. Da crítica teórica, necessariamente abstrata, passa-se à mobilização da militância contra o inimigo de classe. Assim como o “estrangeiro”, o “diferente”, a “modernidade” foram consubstanciados pelas sociedades européias conservadoras ameaçadas de transformação na figura do judeu, a esquerda tradicionalista procura conjurar o fantasma do colapso da União Soviética e de todas as questões envolvidas no fracasso do socialismo real.

Em outras palavras, como aconteceu com a direita dos estados militaristas europeus no começo do século XX, o conservadorismo da esquerda tradicionalista na era posterior à dissolução da União Soviética recorre a um bode expiatório.

A esquerda serve-se de Israel para demonstrar que o capitalismo não mudou e permanece colonialista, imperialista, belicista, racista e genocida, características que efetivamente deram o tom da expansão européia na época da “acumulação primitiva” e da intervenção americana na América Latina, que culminou com a disseminação das ditaduras militares por praticamente todos os países da região, com raras exceções — Costa Rica, por exemplo.

Para a direita nacionalista européia, a culpabilização de Israel é um bálsamo em relação ao passado colonialista do continente e ao anti-semitismo praticado pelos colaboracionistas, atitude nada rara por parte da população dos países ocupados durante a segunda grande guerra.

Em uma palavra, o anti-sionismo responde a muitos e variados interesses, abrangendo um leque que vai da esquerda à direita.

O processo de descolonização na Ásia, África e Oceania e o crescente distanciamento das administrações americanas em relação ao modelo da intervenção militar, possibilitado pela sofisticação dos mecanismos econômicos representativos da globalização, o que alimenta o debate interno relacionado às exceções representadas pelo conflito com o fundamentalismo islâmico (guerras do Afganistão e do Iraque), faz com que os Estados Unidos deixem de ser um alvo tão perfeito. Mas, principalmente, é o poder americano que dissuade a esquerda, pouco convicta que o outrora tigre de papel possa ser derrotado tão facilmente.

Em compensação, a sobrevivência de Israel assemelha-se a um milagre que não poderia repetir-se indefinidamente. A fragilidade de Israel e sua associação com os Estados Unidos representam um convite permanente para a mobilização da militância e a catequese dos neófitos, além de oferecer uma parcela significativa do botim aos politicamente corretos. A derrocada do “império americano” parece um objetivo utópico, mas a destruição do estado tido como seu procurador no Oriente Médio afigura-se não só plausível como iminente.

A esquerda tradicionalista torna-se então radicalmente anti-sionista. É preciso a todo custo fazer esquecer os crimes cometidos pelas ditaduras do proletariado e o fracasso do socialismo real, recuperar a bandeira da ética e atribuir ao inimigo de classe a exclusividade do exercício do mal. Nada melhor do que uma vitória retumbante, como a da guerra do Vietnã. Desse ponto de vista, a esperada retirada americana do Iraque é considerada um aperitivo.

O mito da ocupação, em sua terceira versão, destina-se a justificar o anti-sionismo da esquerda. Contra todas as evidências, Israel é acusado de roubar terras palestinas, explorar seus recursos naturais, impedir a formação do respectivo estado e exterminar sua população, sempre a serviço dos interesses imperialistas, leia-se americanos, na região.

A satanização do sionismo é a pré-condição para que se aceite a destruição do Estado de Israel, imediatamente ou a médio prazo, conforme o plano B, o do estado bi-nacional.

Similarmente à função cumprida pelo anti-semitismo, o anti-sionismo canaliza contra Israel a poderosa coalizão das forças conservadoras. Nada há no fundamentalismo islâmico que se oponha ao anti-sionismo e ao anti-semitismo, muito pelo contrário. Ambos combinam-se às mil maravilhas com a concepção de mundo professada pelas sociedades ultra conservadoras do Oriente Médio. Já o liberalismo é anti-sionista apenas na medida das conveniências, mas, compensatoriamente, as conveniências constituem um critério inabalável, não sujeito a qualquer interferência relacionada à ética. Na medida em que anti-sionismo e anti-semitismo mantém grande proximidade, apesar dos freqüentes protestos em contrário, o pragmatismo inerente ao pensamento liberal está disposto a aceitar as devidas conseqüências, ainda que a discriminação racial atualmente não constitua uma característica intrínseca de seu ideário. Para o liberalismo, os interesses econômicos, associados aos interesses de estado, base da “Realpolitik”, têm total e completa precedência em relação a qualquer outra preocupação. A Grã-Bretanha, na época do Mandato, manifestou essa atitude até as últimas conseqüências consentindo com o extermínio de judeus europeus, impedidos de desembarcar nas costas do futuro Estado de Israel para não ofender a suscetibilidade da aristocracia local. Trata-se de uma posição plenamente coerente com a primazia do lucro e a busca de hegemonia no plano das relações internacionais. As jazidas de petróleo eram muito mais importantes.

Em relação à esquerda, porém, a resistência à transformação representa uma contradição notável. As decorrências do conservadorismo marxista conduzem a uma série de incongruências, cada vez mais graves. O anti-sionismo da esquerda é a melhor representação possível do pântano ético e ideológico em que se debate atualmente o militante.

Uma das conseqüências da opção anti-sionista da esquerda é sua associação com o revisionismo histórico de direita responsável pela negação do Holocausto. No discurso da esquerda o Holocausto existiu, mas é explorado pelos judeus para autorizar Israel a cometer crimes de estado. Ahmadinejad pode recorrer tanto à direita como à esquerda para justificar suas pretensões de anjo exterminador. A versão da direita apresenta os sionistas como mentirosos, a da esquerda como chantagistas. A esquerda anti-sionista, por sua vez, acrescenta à negação do Holocausto a sua própria versão da história do conflito do Oriente Médio, consubstanciada na omissão deliberada de todas as ameaças e tentativas de destruição por parte das ditaduras do Oriente Médio contra Israel. Conseqüentemente, o revisionismo histórico da esquerda nega a responsabilidade das monarquias e regimes castrenses pelo conflito, com a finalidade de atribuí-la ao colonialismo, imperialismo, racismo e à política genocida do estado judeu. A estratégia do revisionismo histórico da esquerda é fazer supor que os regimes ditatoriais reunidos na Liga Árabe e o Irã nada têm a ver com a “luta de libertação nacional” conduzida pela OLP. A esquerda anti-sionista encarrega-se de “lavar” o terrorismo, assim como políticos e empresários corruptos desenvolvem estratégias para legalizar o dinheiro obtido através de operações ilícitas.

A esquerda é responsável pela demonização de Israel na mesma medida em que o 3º. Reich foi responsável pela demonização dos judeus. No segundo caso, todos aqueles que tinham interesse na propriedade, nos cargos públicos, na parcela de mercado e outras vantagens econômicas e sociais auferíveis mediante as leis raciais, se valeram da justificativa nazista para participar da prisão, expulsão e eliminação dos judeus. A esquerda, através de sua influência considerável na mídia, na academia, nos sindicatos e nas ONGs, prepara o terreno para a aceitação da eliminação de Israel e o correspondente destino de sua população, que seria entregue a fanáticos manipulados pelos governos mais retrógrados do planeta.

Portanto, em nome do anti-americanismo e para recuperar a boa consciência perdida, a esquerda anti-sionista recorre a uma forma particularmente repugnante de discriminação, enquanto se cala diante do genocídio efetivamente cometido por um regime islâmico contra etnias cristãs e animistas, ao mesmo tempo em que fornece a justificativa antecipada para outro possível genocídio, prometido em relação aos judeus israelenses. Associa-se assim a governos que cometem diariamente crimes contra minorias religiosas e sexuais, além de praticarem as modalidades mais extremas de opressão às mulheres. Desse ponto de vista, a esquerda anti-sionista assinou um pacto em tudo e por tudo semelhante ao de Fausto. Vendeu sua alma (sua ética) para prolongar por algum tempo a crença numa imagem que foi destruída sem piedade pelos regimes socialistas sempre que exerceram o poder. Recusando examinar os motivos pelos quais a prática subverteu a tal ponto a teoria, não encontrou outra solução senão recorrer ao mesmo bode expiatório da direita conservadora, deslocando a satanização do judeu para a satanização do sionismo.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Hajj Amin Al-Husayni: O Mufti de Jerusalem e a aliança do movimento nacional palestino com o nazismo

A história da aliança do Mufti de Jerusalem com o nazismo na década de 30 e 40 já é extremamente conhecida. Mas vale a pena lembrá-la, especialmente par mostrar que o movimento nacional que realmente fez um conluio sanguinário com o nazismo foi o palestino das décadas de 30 e 40. Como o radicalismo islâmico, palestino e esquerdista (a esquerdalha radical, burra e que não estuda História) gosta de fazer paralelos do sionismo com o nazismo aqui vamos mostrar a verdadeira ligação: uma aliança de grupos muçulmanos bósnios com o nazismo e também a aliança do líder do movimento nacional palestino da era do Mandato Britânico com Adolf Hitler.

Durante toda a Segunda Guerra Mundial, o Mufti promoveu propaganda pró-Eixo e anti-judaica de Berlim ao mundo árabe. Ele ajudou a recrutar a 13a. divisão Waffen SS Handschar, uma unidade composta de mais ou menos 20.000 muçulmanos bósnios. A divisão Handschar foi especialmente alocada para suprimir atividades dos partisans de Tito na Iugoslávia, cometendo diversas atrocidade contra civis e crimes contra a humanidade.

O Mufti se encontrou com o líder da SS Heinrich Himmler e com o ministro do Exterior Joachim von Ribbentrop no início da década de 40. Eles prepararam em conjunto uma declaração que o Mufti desejava que Hitler e Mussolini realizassem, anunciando a intenção de aplicar a Solução Final aos judeus do Oriente Médio. Ela estava bem explícita: "A Alemanha e a Itália reconhecem a ilegalidade do Lar Nacional Judaico na Palestina. Elas reconhecem o direito da Palestina e de outros países árabes de resolver a questão dos elementos judaicos na Palestina e nos países árabes conforme se julgue necessário aos interesses nacionais árabes, e do mesmo modo que a questão judaica nas terras do Eixo vêm sendo solucionada".

Hajj Amin Al-Husseini também realizou numerosos serviços para a causa assassina de Hitler. Quando ele descobriu que Adolf Eichmann estava tentando fazer um acordo com o governo britânico para libertar 5000 crianças judias que rumariam à Palestina em troca de prisioneiros de guerra alemães. Ele protesotu junto à SS e foi bem sucedido. As crianças foram enviadas para campos de concentração na Polônia e foram assassinadas. Ele também foi crucial no recrutamento de muçulmanos bósnios para divisões da SS que foram responsáveis por massacrar uma grande porcentagem dos judeus da Bósnia-Herzegovina e queimar incontáveis igrejas e vilas sérvias.

E agora as imagens que comprovam e reforçam a ligação do Mufti com o nazismo hitlerista. Uma imagem vale mais que mil palavras!!!

Abaixo temos Hajj Amin al-Husayni acompanhado da SS alemã e membros bósnios da Waffen-SS durante uma visita oficial à Bósnia em 1943:

Na imagem abaixo vemos um membro bósnio da SS fazendo a saudação nazista para Husayni:

Na foto abaixo vemos Husayni passando em revista a recrutas muçulmanos bósnios da Waffen SS:
Outra imagem do mufti al-Husaini inspecionando tropas alemãs e fazendo inclusive a saudação nazista:


E, para finalizar e reforçar a importância do Mufti de Jerusalém como aliado político do nazismo alemão, fechamos a série de fotos com chave de ouro (a foto abaixo não precisa de mais comentários):

Bibliografia básica:

Bethell, Nicholas. The Palestine Triangle: The Struggle between the british, the jews and the arabs 1935-1848. London: Andre Deutsch Ltd., 1979.

Elpeleg, Zvi. The Grand Mufti of Jerusalem: Haj Amin al-Husayni, Founder of the Palestinian National Movement. London: Frank Cass, 1993.

Hirszowicz, Lukasz. The Third Reich and the Arab East. London: Routledge and Kegan Paul, 1966.

Mattar, Philip. The Mufti of Jerusalem: Al-Hajj Amin al-Husayni and the Palestinian National Movement. Rev. Edition. New York: Columbia University Press, 1992.

Nicosia, Francis R. The Third Reich and the Palestine Question. New Brunswick: Transaction Publishers, 2000.

Schechtman, Joseph. B. The Mufti and the Fuehrer: The Rise and Fall of Haj Amin el-Husseini. New York: Thomas Yoseloff, 1965.

HAJJ AMIN AL-HUSAYNI: THE MUFTI OF JERUSALEM

From Al Husseini to Hitler :Radical Islam and the Nazi connection - Pan Arabism to the PA

Mufti of Jerusalem Hajj Amin's Role as an Instigator of the Shoah (Holocaust)

Muftism and Nazism: World War II Collaboration. Documents

Islã: a conexão nazista

Nazism, Holocaust denial and the Arab world


Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Resenha de Efraim Karsh sobre o livro "The Iron Cage: The Story of the Palestinian Struggle for Statehood" de Rashid Khalidi

Veja o artigo original em inglês. Segue abaixo a tradução:

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As ilusões de ferro de Rashid Khalidi - Uma resenha do livro "The Iron Cage: The Story of the Palestinian Struggle for Statehood"


Em discussões sobre a História do moderno Oriente Médio tornou-se popular ver os atores locais como vítimas sofredoras de longa data das investidas agressivas do Ocidente. Alguns datam esse fenônemo nas Cruzadas. Outros o datam na destruição do Império Otomano e a alegada criação de um sistema de estados artificiais sobre suas ruínas, que quebrou a unidade histórica desta área predominantemente árabe e plantou as sementes do mal endêmico que adoenta o Oriente Médio até os dias de hoje.


Apesar de toda essa empatia fingida, essa recusa de responsabilizar as pessoas do Oriente Médio por suas ações é nada mais que uma patronização na pior tradição do "fardo do homem branco". Ela vê os habitantes locais como criaturas de pouca perspicácia, cuja História não possui uma dinâmica interna própria. Como o próprio T.E. Lawrence, o campeão ocidental mais influente do pan-arabismo, descreveu os seus protegidos árabes: "Eles são um povo limitado e de mente fechada, cujo intelecto inerte cai em não curiosa resignação... Eles apenas conhecem verdade e mentira, crença e descrença, sem nossa hesitante visão mais refinada."


Rashid Khalidi, que ocupa a cadeira de Estudos Árabes Edward Said na Universidade de Columbia, pode não usar essa linguagem politicamente incorreta, mas seu livro está repleto de condenscendência. Apesar de afirmar que tenta ver os palestinos "não apenas como vítimas indefesas de forças maiores que eles próprios", o livro "The Iron Cage" trata os árabes palestinos como meros objetos, repetidamente forçados a "um canto impossível, em uma jaula de ferro" por uma coalizão maldita composta do movimento sionista e das nações mais poderosas do mundo.


Sua metáfora alude ao famoso artigo escrito em 1923 por Zeev Jabotinsky intitulado "A Muralha de Ferro", muito usado pela propaganda árabe como prova da natureza agressiva do sionismo e seu desejo inerente de despossuir os árabes palestinos. De fato, o artigo, como é o caso de incontáveis outros escritos e declarações de Jabotinsky, argumenta precisamente o oposto. Escrito dois anos após o massacre de 90 judeus e outros centenas de feridos em uma onda de pogroms árabes, ele advogava a criação de uma barreira formidável que convenceria os árabes de desistir de seus esforços para destruir a causa nacional judaica e a aceitar uma solução negociada baseada em igualdade e respeito mútuo. "Eu estou preparado para fazer um juramento nos obrigando e aos nossos descendentes que nunca faremos nada contrário ao princípio de direitos iguais, e que nunca tentaremos expulsar alguém", Jabotinsky escreveu. "Eu considero praticamente impossível expulsar os árabes da Palestina. Haverá sempre duas nações na Palestina."


Mas o Sr. Khalidi não é alguém que se importa com os fatos. Tamanho é o seu desrespeito pela Verdade Histórica que ele não apenas evita os milhões de documentos liberados nas décadas passadas pelos arquivos israelenses, ocidentais e da ONU, mas também não faz nenhum esforço para analisar a riqueza de documentação árabe e palestina da guerra de 1948, se baseando ao invés disso em fontes secundárias que adicionam pouco valor ao que já é sabido sobre o assunto.


Numa tentativa de justificar essa extraordinária realização de preguiça intelectual, o sr. Khalidi fornece uma série de desculpas contraditórias. Ele se lamenta da falta de uma "base documental palestina maciça, central e unificada", porém falha ao explicar porquê isso teria restringido a utilização de uma "superabundância de fontes documentais e de arquivos espalhados que podem ser usados para juntar as peças do lado palestino sobre o que aconteceu em 1948". Ele se recusa a "ler a História dos derrotados nos registros dos vitoriosos, ainda que útil fosse esse exercício" porém ele rapidamente endossa as pesquisas duvidosas dos historiadores israelenses "revisionistas", que alegadamente se baseiam nesses mesmos "registros dos vitoriosos". Ele reconhece que " a história de como os palestinos agiram e reagiram durante as três decadas de controle britânico foi contada em pormenores", porém falha em explicar como isso corresponde à sua descrição da história palestina como uma "História escondida": a principal justificativa para a escrita do livro.


Mas essas falhas empalidecem em comparação com a profunda desonestidade do livro. A questão central que ele diz tratar é porquê os árabes palestinos falharam em estabelecer um Estado independente antes de 1948, ano da fundação de Israel, e porquê eles permaneceram sem Estado pelos próximos 58 anos. Porém os leitores de "The Iron Cage" nunca saberão das reais oportunidades para a criação de um Estado ofertadas aos palestinos durante os últimos 70 anos - dos planos de partilha de 1937 e 1947, aos acordos egípcios-israelenses de Camp-David em 1978, aos acordos de Oslo - que a liderança palestina, por suas própria decisão, jogou fora. Também não irão aprender sobre as incontáveis tentativas sionistas de reconciliação, nas décadas que precedem a guerra de 1948, através de encontros secretos com interlocutores palestinos, transjordanianos, sírios, egípcios, iraquianos, sauditas e libaneses. Ao invés disso, eles são levados a uma estória ininterrupta de vitimização e abuso contra os indefesos palestinos gerada por Grã-Bretanha, América, Unisão Soviética e França, "todos que suportaram o sionismo e a partilha da Palestina em um Estado judeu e árabe, mas não fizeram nada para prevenir o aborto do Estado árabe embriônico da Palestina em 1947-1948."

A realidade, é claro, foi bem diferente. Não foi o Estado árabe que esteve face a face com uma tentativa de destruí-lo em seu nascimento, mas sim o Estado nascente de Israel que foi submetido a um ataque coordenado por esta Entidade árabe embriônica e pelos Estados árabes vizinhos. Muito menos as grandes potências fizeram algo para prevenir a tentativa de destruição de uma grande comunidade judaica alguns anos após o Holocausto. A América impôs um embargo regional de armas, que foi essencialmente direcionado contra a comunidade judaica da Palestina, pois os árabes tinham fornecedores alternativos de armamentos. Enquanto a Inglaterra, melhor posicionada que qualquer outro ator internacional para influenciar o futuro da Palestina devido à sua posição de potência ocupante, fez tudo ao seu alcance para evitar a criação do Estado judeu. Suas ações passaram desde por impor um forte bloqueio naval para prevenir a imigração judaica, o elixir da vida do novo Estado judaico, a detenção de dezenas de milhares de sobreviventes do Holocausto em campos de concentração no Chipre, o fornecimento de armas e serviços técnicos para os exércitos árabes, uma atitude relaxada em relação ao fluxo de armas de Estados árabes vizinhos para a Palestina e ainda um embargo à chegada de armas para os judeus. E assim por diante.

Em relação à França, sua falta de apetite pela criação de um Estado judeu foi evidenciada não apenas pela sua rancorosa aceitação da resolução da partilha, mas também por sua libertação do grande Mufti de Jerusalém, que viria a se juntar a criminosos de guerra nazistas em Nuremberg, e que prometeu "lançar uma durável cooperação franco-árabe". Nas próximas décadas, como meticulosamente documentado no livro "Betrayal: France, the Jews, and the Arabs" de David Pryce-Jones, a França se tornaria um dos mais incondicionais aliados dos árabes e palestinos.

Pior, a ligação feita pelo sr. Khalidi da idéia da Partilha com um viés anti-palestino é uma inversão da verdade histórica. Para ser claro, o mundo árabe naquele momento estava virtualmente unificado em oposição à idéia. Mas isso tinha a ver menos com a preocupação com um Estado palestino e sim por causa de uma visão de soma zero que deveria deixar os judeus sem nenhum tipo de direito nacional. Como é conclusivamente mostrado pelas evidências históricas, se os judeus tivessem perdido a guerra de 1948, seu território não seria entregue aos árabes palestinos. Ao invés disso, ele teria sido dividido entre as forças árabes invasoras, pela simples razão que nenhum dos regimes árabes da região via os palestinos como uma nação distinta e a maioria deles tinha os próprios objetivos em relação ao território. Como foi demonstrado, nem o Egito e nem a Jordânia jamais deixaram os palestinos ter sua auto-determinação nas partes da Palestina que estes países conquistaram em 1948.

Em contraste, a aceitação da resolução da partilha da ONU de novembro de 1947 teria não apenas resultado no estabelecimento de um Estado árabe em metade da Palestina do mandato, assim evitando a tragédia palestina de dispersão e exílio, mas também teria trazido benefícios econômicos substanciais pois o novo Estado árabe seria ligado ao novo Estado judeu em uma união econômica que efetivamente se traduziria em pesados subsídios judaicos aos palestinos.

Mas segundo o Sr. Khalidi, compromisso e concessões mútuas nunca foram uma opção. Não é um mero acidente que, quando ele discute a possibilidade de uma oportunidade histórica perdida, ele prefere se concentrar na rejeição palestina ao "White Paper" britânico de 1939: uma imposição unilateral externa de um Estado árabe (onde os judeus seriam permanentemente reduzidos ao status de minoria) ao invés de um acordo negociado entre árabes e judeus.

O sr. Khalidi pode estar correto em retratar o "White Paper" como natimorto. Não apenas porque os judeus jamais aceitariam a clara destruição de sua causa nacional, mas porque esta "hora de derrotismo de baixo escalão", como Winston Churchill chamava o "White Paper", deu seu último suspiro com a erupção da Segunda Guerra Mundial, apesar do esforço do governo britânico de fazê-lo ressucitar após a guerra. Porém ao focar nesse episódio ao invés das reais oportunidades perdidas pelos árabes palestinos, e ao recusar a mostrar a verdadeira face dessa última demonstração de teimosia, ao invés de rebaixá-la a um erro tático ou diplomático, o sr. Khalidi nos fornece uma visão penetrante de sua própria mentalidade intransigente, que rejeita a própria existência de Israel e advoga sua destruição através do eufemismo da "solução de um único Estado".

Poderíamos ter esperança que após 80 anos de teimosa aderência à uma "solução de um único Estado" e uma rejeição igualmente determinada contra a "solução de dois Estados" - que resultou na atual situação palestina sem um Estado próprio - todos, menos os mais fanáticos auto-iludidos, teriam compreendido as causas raízes para o fracasso palestino. Porém isso não ocorreu, ainda mais triste é esse fato porque essa falta de compreensão vêm de um historiador que supostamente reendereça a "contínua recusa de olhar honestamente o que aconteceu nessa pequena terra durante o último século".

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

Resenha do livro "A Muralha de Ferro" de Avi Shlaim - Por Efraim Karsh

A resenha de Efraim Karsh demonstra que o livro "The Iron Wall", traduzido no Brasil como "A Muralha de Ferro", força uma noção mítica da História de Israel.


Por Efraim Karsh - Resenha do livro "A Muralha de Ferro" de Avi Shlaim


No verão de 1993 eu participei em uma discussão sobre o processo de paz árabe-israelense na conferência anual da Sociedade Britânica para os Estudos do Oriente Médio. Um governo liderado pelos trabalhistas e tendo como chefe Yitzhak Rabin, o mais pacifista da História de Israel, foi eleito no ano anterior com o comprometimento para a paz. Porém meu co-panelista, Avi Shlaim da Universidade de Oxford, não se impressionou. "Deixem-me contar uma anedota", ele disse para reforçar seu ceticismo. "Quando perguntado sobre sua reação à mudança de regime em Israel, um velho palestino disse: 'Você vê meu sapato esquerdo? Este é Yitzhak Rabin. Você vê meu sapato direito? Esse é Yitzhak Shamir. Dois Yitzhaks, dois sapatos, então qual é a diferença?' ".


Para a maioria das pessoas irá fazer, é claro, uma diferença fundamental se eles colocarem o sapato direito no pé esquerdo, e vice-versa; não demorou muito para essa analogia se demonstrar errada com os acordos de Oslo e o processo de paz iniciado entre Israel e seus vizinhos. Mas, para Shlaim, parece não haver nenhuma diferença entre as atitudes da direita e da esquerda israelense em relação ao mundo árabe em geral, e aos palestinos em particular.


Esse ponto de vista é ilustrado pelo título de seu estudo sobre a política de Israel em relação ao mundo árabe - "A Muralha de Ferro" - termo emprestado de um artigo de 1923 escrito por Zeev Jabotinsky, pai fundador do sionismo revisionista e antecedente do partido Likud atual. No artigo Jabotinsky via a criação de uma base sionista invulnerável - política, diplomática e militarmente - como a única forma de convencer os árabes a desistir do seu esforço de obliterar a causa nacional judaica e aceitar uma solução negociada baseada em respeito e igualdade mútua. Mas Shlaim interpretou erroneamente este extenso conceito de poder como se fosse uma obsessão estreita em relação à força militar, atribuindo erroneamente esta obsessão tanto às políticas da esquerda quanto da direita israelense durante o século XX.


Shlaim concorda em seu livro que Jabotinsky reconhecia os direitos nacionais dos palestinos, era categoricamente oposto à sua expulsão da Palestina, e aceitava tranquilamente uma solução negociada baseado em respeito mútuo e direitos civis, assim que os árabes eliminassem de suas mentes a esperança de destruir o nacionalismo judaico. Porém isso não previne-o de de mostrar a História sionista/israelense como um catálogo de teimosia, agressão e obsessão com a força militar. O comprometimento árabe explícito em destruir a causa nacional judaica, e suas contínuas tentativas violentas para atingir esse objetivo desde o início da década de 1920, é convenientemente negligenciado, assim como as tentativas judaicas para conseguir uma coexistência pacífica. Ao invés disso, o leitor sai com uma impressão surreal do conflito, onde um pequeno e frágil mundo árabe é cercado por uma agressiva e expansionista superpotência judaica.


Em um breve ponto no tempo, após a assinaturados acordos de Oslo de 1993, Shlaim rasga sua análise indiscrimada ao conceder que as diferenças entre os trabalhistas e o Likud são "bem profundas, nos reinos tanto da ideologia quanto da prática política" (página 479 da edição original). Porém ele falha em rastrear essas divergências às suas origens reais, muito antes do estabelecimento do Estado de Israel. Em vez disso ele vê as políticas dos trabalhistas e dos revisionistas durante esse período prolongado como virtualmente idênticas, como se não houvesse diferença entre a aceitação trabalhista da resolução da ONU sobre a Partilha de novembro de 1947, com seu comprometimento explícito com a criação de um Estado árabe-palestino, e a rejeição dos revisionistas desta resolução, ou entre a adoção pelos trabalhistas da fórmula "terra por paz" após a guerra de 1967 e o comprometimento do Likud com a doutina do "Grande Israel".


Mas a mais incrível acusação lançada contra o movimento sionista é o seu alegado "não-reconhecimento de uma entidade nacional palestina", iniciando com Theodore Herzl, fundador do sionismo político. Mas novamente, Shlaim não falha em demolir sua própria acusação falsa. Primeiro ele reconhece que seria virtualmente impossível para Herzl reconhecer tal entidade nacional já que "a Palestina era uma província do Império Otomano, e um movimento nacional árabe estava apenas começando a a se desenvolver lá". Ainda mais importante, Shlaim identifica Jabotinsky como "o primeiro líder sionista que reconheceu os palestinos como uma nação". Ele não explica como o reconhecimento por um líder sionista proeminente em relação ao nacionalismo palestino em um estágio tão embriônico de desenvolvimento corresponde à alegada rejeição sionista a este movimento nacional palestino.


De fato, Jabotinsky foi precedido por outros líderes sionistas em reconhecer a entidade nacional palestina. Já em 1891, o pensador sionista Ahad HA-Am se referiu ao que pode ser definido como proto-nacionalismo árabe palestino (apesar de que isso pouco existia naquele momento). De maneira similar, em um discurso para a convenção anual sionista de 1922, o ativista trabalhista proeminente Haim Arlosoroff disse que "não há outra forma exceto o estabelecimento de um estado conjunto na Terra de Israel para judeus e árabes, como povos iguais". E David Ben-Gurion , em numerosos artigos e discursos de 1915 em diante, repetidamente enfatizou os direitos nacionais árabes palestinos. "A comunidade árabe no país certamente possui o direito à auto-determinação, ao auto-governo", ele declarou em 1924. "É inconcebível para nós negar estes direitos ou diminuí-los. A autonomia nacional que pedimos para nós, requistamos também para os árabes".


O ponto culminante dessa tendência foi a aceitação sionista da resolução da ONU da Partilha estipulando a criação de um Estado árabe em parte da Palestina do mandato britânico. Como o ministro das Relações Exteriores Moshe Sharett disse em um encontro do gabinete israelense em 16 de junho de 1948, "Eu assumo... que é nosso ponto de vista unânime que uma Palestina árabe está aqui para ficar como um estado árabe separado, desconectado da Transjordânia e da Síria, mas ao invés disso um Estado árabe-palestino separado em um território específico da Palestina e dentro de suas fronteiras".


É claro que não há nada de novo ou original na errônea idéia de que o sionismo negou reconhecimento dos direitos nacionais dos árabes palestinos. Essa idéia é tão velha quanto o próprio sionismo, tendo sido propagada por inimigos sucessivos da causa nacional judaica, de ativistas pan-árabes, a propagandistas soviéticos, até os "novos esquerdistas" ocidentais. Se muito, a "Muralha de Ferro" se compara desfavoravelmente com muitos destes precursores. Baseado principalmente em fontes secundárias, essa narrativa convencional do encontro do sionismo com o mundo árabe não possui a profundidade histórica e sociológica de Maxime Rodinson, a sofisticação cultural de Edward Said e o zelo retórico de Muhammad Hassanein Heikal.


Um velho sapato, realmente.

Terça-feira, Agosto 14, 2007

Lula, PT e o autoritarismo da esquerda brasileira no poder

O Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula deram vários sinais claros nesses últimos tempos de seu autoritarismo. Aos pouco a verdadeira face do PT se mostra. Pode-se perceber que é um avanço vagaroso da censura, mas que aos poucos avança para um temido chavismo tupiniquim. Vou enfatizar dois pontos que demonstram a verdadeira face do lulismo.

Primeiro temos a decisão adotada pela Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores convocando detentores de mandatos públicos à mobilização contra uma "grande ofensiva da direita aliada a certos setores da mídia contra o PT e o governo do presidente Lula". Gléber Naine, responsável pela comunicação do PT, destacou o canal de televisão privado TV Globo e os diários Correio Braziliense, O Estado de São Paulo, O Globo e Folha de São Paulo.

Essa decisão foi criticada duramente pelos Repórteres Sem Fronteiras e pela entidade americana Overseas Press Club of America.

De acordo com os Repórteres sem Fronteiras: "A resolução que o PT acaba de aprovar ocorre poucos dias após a ampla cobertura pela mídia das manifestações que se seguiram após a catástrofe aérea no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no dia 17 de julho, e as vaias dirigidas ao presidente Lula por ocasião da abertura dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro. Tais manifestações devem ser vistas como uma crítica sistemática às autoridades de Brasília? Deveria a imprensa se calar diante desses eventos, deixando-os passar de forma despercebida? É possível responsabilizar a mídia pela insatisfação provocada pela emoção coletiva decorrente da tragédia de Congonhas? Repórteres sem Fronteiras vem por meio desta chamar as autoridades de governo ao bom senso. A decisão do PT não nos parece em acordo com um partido democrático. Ela não pode senão alimentar o rancor, e deve ser reconsiderada".

Segundo o OPC: "Essa resolução, grosseira como é, tem ominosas implicações na essencial liberdade da imprensa e deveria ser reconsiderada e abandonada. Ela é vista como um reflexo do crescente autoritarismo de seu segundo mandato e ameaça seu bom nome - assim como a democracia do Brasil".

O segundo ponto é o acordo de cooperação que o PT assinou com o Partido Baath da Síria. De acordo com a notícia do site do PT: "durante a visita, que foi aberta por uma audiência com o próprio presidente sírio, o PT e o Baath assinaram um protocolo de cooperação que prevê o intercâmbio de experiências entre os partidos... Uma das intenções do pacto é promover o intercâmbio de idéias...". Provavelmente o PT quer trocar experiências e realizar um intercâmbio de idéias para entender como se tornar mais autoritário e ditatorial do que já é. Esse acordo é um claro retorno às raízes históricas do stalinismo petista.

O Centro Simon Wiesenthal, que combate o anti-semitismo no mundo, deixou bem claro o intuito do Partido dos Trabalhadores: "O partido Baath encabeça há décadas em seu país um regime autoritário que desconhece o respeito pelos direitos humanos... Causa profunda decepção que um partido como o PT, que se valeu das regras do Estado de Direito para ascender à Presidência do Brasil, omita a promoção da democracia dos valores indispensáveis no momento de estabelecer seus acordos de cooperação em nível internacional".

Segundo Valter Pomar, secretário de relações internacionais do PT, "a crítica à política norte-americana no Oriente Médio foi o que motivou o acordo entre o PT e o Baath". Essa resposta deixa óbvia a verdadeira face do PT. Não interessa para o Partido a defesa dos direitos humanos. O que importa é fazer oposição aos Estados Unidos, mesmo que seja aliando-se a grupos decididamente autoritários e que promovem a desestabilização de todo o Oriente Médio. A Síria, através de seus dirigentes do Partido totalitário Baath, realiza assassinatos de opositores políticos (inclusive em outro país, o Líbano) e ainda promove organizações terroristas como o Hamas e o Hezbollah. Valter Pomar ainda disse que "O Centro Wiesenthal é respeitável", mas usa "argumentos primários e cínicos". Se a defesa dos direitos humanos e da democracia é um argumento primário então fico cada vez com mais receio do nosso atual governo e de suas políticas cada vez mais autoritárias.

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

Resenha do livro "A Grande Guerra pela Civilização" de Robert Fisk - Por Efraim Karsh

Resolvi traduzir a resenha feita pelo grande historiador Efraim Karsh, do livro "A Grande Guerra pela Civilização" de Robert Fisk. Acho importante essa resenha porque ela demonstra a montanha de erros e problemas desse livro impregnado de tendenciosidades e uma extrema falta de conhecimento histórico. A resenha de Karsh simplesmente desmonta a realidade desse livro: uma obra cheia de erros e que só serviria como apoiador para monitor de computador.

Beirut Bob (clique no link para a resenha no original em inglês) - Por Efraim Karsh - Resenha do livro "A Grande Guerra pela Civilização" de Robert Fisk


Nenhum jornalista estrangeiro é identificado mais de perto com o Oriente Médio que o escritor britânico Robert Fisk. Por causa de 30 anos de reportagens de sua base em Beirute, primeiro para o Times de Londres e agora para o Independent, Fisk construiu uma reputação não apenas como um intrépido correspondende de guerra, mas como o principal comentarista dessa região volátil. Seus olhos para detalhes e sua prontidão em cobrir os pontos mais quentes fizeram com que ele ganhasse publicidade mundial e inúmeros prêmios profissionais.

Nada disso deixou Fisk notadamente modesto, como o calhamaço de mil páginas de seu livro mais recente sugere. O assunto ostensivo de "A Grande Guerra pela Civilização" é o período turbulento durante o qual Fisk ficou estacionado no Oriente Médio, da Revolução Iraniana e a Invasão Soviética ao Afeganistão no final da década de 70 até as duas guerras lideradas pelos Estados Unidos no Iraque e, acima de tudo, do conflito árabe-israelense. Mas o grande tema unificador é o próprio Fisk. Como ele escreve em seu prefácio sobre sua reportagem inicial do Times em 1976: "Eu tinha 29 anos, e estavam me oferecendo o Oriente Médio. Eu imaginei como o rei Faisal se sentiu quando lhe foi 'oferecido' o Iraque ou como seu irmão Abdullah reagiu à 'oferta' da Transjordânia feia por Winston Churchill".

Que Fisk se identique tão prontamente com os autocratas árabes da região não é um acidente. É uma metáfora apta.

O papel dos jornalistas, Fisk escreve em suas páginas de abertura, é o de de serem "as primeiras testemunhas impaciais da História". "Se nós temos alguma razão para nossa existência, o mínimo que devemos fazer é manter nossa habilidade de relatar a história como ela aconteceu para que ninguém possa dizer: 'Nós não sabíamos - ninguém nos contou' ".

Para Fisk, esse fardo de "imparcialidade" levou em uma direção distinta. Seu livro, como o seu jornalismo, se remete a uma narrativa histórica que se tornou padrão nas universidades ocidentais. Nesta visão, a culpa para todos os problemas do Oriente Médio está no próprio Ocidente, começando com as potências européias que, depois da Primeira Guerra Mundial, criaram a partir dos restos do Império Otomano uma série de Estados inventados. Como Fisk coloca: "Demorou para a geração dos meus pais apenas 23 meses para criar essas fronteiras artificiais... Nós vitoriosos prometemos independência aos árabes e suporte para um Lar Nacional judaico na Palestina. Promessas deveriam ser mantidas. E essas promessas... foram atraiçoadas e quebradas, e os milhões de árabes e judeus do Oriente Médio estão agora condenados a viver com os resultados".

Ao serem enganados pelos europeus em uma revolta contra seu suzerano otomano, os nacionalistas árabes, de acordo com Fisk, não poderiam aceitar a ordem política distorcida que se formou logo após a Primeira Grande Guerra.

Menos ainda eles poderiam aceitar sua consequência mais funesta: o estabelecimento em 1948 do Estado de Israel. Como Fisk escreve: "Por que os palestinos devem manter a promessa britânica na Primeira Guerra Mundial feita a um povo cujos ancestrais viveram na terra deles dois mil anos antes?". Em relação à derrota dos palestinos e a tentativa árabe de destruir o Estado judeu em sua infância, Fisk argumenta que isso não foi nada menos que um exercício de limpeza étnica em detrimento dos árabes.

A passagem do tempo apenas alargou essa injustiça, estória que ocupa a maior parte das páginas e constitui o coração emocional do livro "A Grande Guerra pela Civilização". Os palestinos, segundo Fisk conta, agora sofrem não apenas dos judeus mas também de uma liderança que aceita jogar fora suas requisições históricas. Típico de seus relatos nesse sentido é a sua análise da resposta palestina para a "Declaração de Princípios (DOP)" que marcou o início formal das negociações de Oslo em 1993. Enquanto os dirigentes se congregavam na Casa Branca para a cerimônia histórica de assinaturas, Fisk viajou pela Cisjordânia, onde ele verificou que "Ninguém... falou favoravelmente acerca da aceitação por Arafat da solução 'interina' ".

Quando chega aos próprios israelenses, Fisk acha difícil catalogar a totalidade de seus supostos crimes - mas ele tenta. Um episódio descrito em detalhes excruciantes é a matança em 1994 de 29 palestinos em Hebrom pelo fanático judeu Baruch Goldstein.

E Fisk também não resiste em revisar os aspectos particulares de outro episódio favorito da suposta perfídia israelense, a campanha anti-terrorista do Exército de Defesa de Israel nas cidades e campos de refugiados da Cisjordânia em abril de 2002, no auge da segunda Intifada. Dedicando quatro páginas inteiras aos eventos em Jenin, onde 38 combatentes palestinos e 14 civis foram mortos em combates pesados (uma luta que também ceifou a vida de 23 soldados israelenses), Fisk luta para encontrar os termos corretos para os horrores alegados: "Qão grande deve um massacre ser antes que seja qualificado como um genocídio? Quantos mortos para que um genocídio se transforme em um holocausto?".

Continuamente, de acordo com Fisk, o Ocidente aplica um padrão duplo. A palavra "terrorismo", ele escreve, "se tornou uma praga em nosso vocabulário". É uma "desculpa e uma razão e uma permissão moral para a violência patrocinada pelo Estado - nossa violência - que agora é usada nos inocentes do Oriente Médio cada vez mais promiscuamente e ferozmente".

A acusação de Fisk é familiar, pelo menos para qualquer um que já conheceu a propaganda árabe através dos anos ou, mais recentemente, quem conhece os slogans e palavras de ordem da esquerda anti-Israel. Mas ele não quer ser visto como apenas outro defensor de um dos lados do debate. Fisk quer ser visto seriamente, tanto como jornalista como escritor com maiores ambições intelectuais e historiográficas. Nisto ele falha completamente e previsivelmente erra de longe.

Primeiro há o problema da simples corretude. É difícil virar uma página do livro "A Grande Guerra pela Civilização" sem encontrar erros básicos. Jesus nasceu em Belém e não, como Fisk relata, em Jerusalém. O califa Ali, primo e genro do prfeta Maomé, foi assassinado no ano de 661 e não no século VIII. O Emir Abdallah se tornou rei da Transjordânia em 1946 e não em 1921. A monarquia iraquiana foi deposta em 1958 e não em 1962; Hajj Amin al-Husseini, o mufti de Jerusalem, foi apontado pelas autoridade britânicas e não eleito. O Aiatolá Khomeini transferiu seu exílio da Turquia para a cidade de Najaf, santa para os xiitas, não durante o domínio de saddam Hussein, mas quatorze anos antes de Saddam ter tomado o poder. A resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU passou em novembro de 1967 e não em 1968; Anwar Sadat do Egito assinou um tratado de paz com Israel em 1979 e não em 1977, e foi assassinado em outubro de 1981 e não em 1979. Yitzhak Rabin foi ministro da Defesa, não primeiro ministro, durante a primeira Intifada palestina, e a al-Qaeda não se estabeleceu em 1998 mas sim uma década antes. E assim por diante e ao longo de todo o livro.

Mas o problema mais profundo do trabalho de Fisk não é o tipo da coisa que pode ser ajustada adquirindo-se um assistente de pesquisa ou um aparato de verificação de fatos melhor. Fatos devem ser colocados em seu contexto apropriado, e isto demanda um grau de boa fé que em Fisk é completamente ausente. De fato, tão descarados e conscientes são seus preconceitos ideológicos que o seu próprio nome entrou no léxico da Internet como sinônimo de viés sistemático.

O ângulo preciso de seu lado foi confirmado pelo próprio Osama bin Laden que, em uma mensagem em videotape nas vésperas da eleição presidencial americana de 2004, recomendou Fisk por suas reportagens incisivas e "neutras". No Planeta Fisk, há caras maus e vítimas, e as vítimas - os árabes - não podem fazer nada errado, pelo menos nada pelos quais eles possam ser responsabilizados diretamente.

Em relação ao longo registro de terrorismo palestino, Fisk tem sua própria sacola de "frases prontas" para evitar chamar esses atos pelo seu nome próprio. Ele descreve como meras "mortes" o assassinato a sangue frio de onze atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique de 1972, como se eles tivessem morrido naturalmente devido aos exercícios físicos. O massacre de 26 passageiros no aeroporto de Tel Aviv no mesmo ano aparece como "tiroteio inspirado por palestinos".

Esse é o padrão geral que Fisk aplica como uma "testemunha imparcial da História". Massacres de civis inocentes por militantes árabes e islâmicos ao redor do mundo - de Jerusalém e Tel Aviv a Manhattan, Bali e Bagdá - não são para ele atos de terrorismo mas apenas uma resposta patriótica compreensível de um povo brutalizado pela ocupação colonial. O efeito curioso desse esforço de absolver os povos do Oriente Médio de qualquer culpa ou responsabilidade pelos problemas da região e de seus próprios atos, faz de Fisk culpado do pecado pelo qual ele sem fim ataca o Ocidente: ele patroniza os seus súditos na pior tradição do "fardo do homem branco".

Apesar de Fisk se comparar com reis árabes no início de seu livro, ele emerge no final das contas, muito mais como Lawrence da Arábia. Lawrence afirmava que os árabes eram um "povo limitado mentalmente", incapaz de comportamento decente porque seu "intelecto fica inerte em resignação e falta de curiosidade". Como o eminente Bernard Lewis gosta de brincar, possuir essas atitudes fundamentalmente racistas é o que significa hoje ser "pró-árabe".


Professor Efraim Karsh é historiador e chefe do departamento de Estudos mediterrânicos no King's College, Universidade de Londres.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

A Propriedade das terras na Palestina no final do Mandato Britânico - 1946 a 1948

Um fato importante a se considerar em relação ao plano de partição da Palestina, adotado pela Assembléia Geral da ONU em 29 de novembro de 1947, se refere à propriedade das terras no período imediatamente anterior.

De acordo com o "Survey of Palestine", publicado em 1946 pelo Comitê Anglo-Americano independente, temos a seguinte divisão de terras:

8,6 % --> propriedade de judeus

28,6 % --> propriedade de árabes. Obs: se retirarmos as áreas de pastagens beduínas ( 8,4% ) e terras desertificadas ( 13,4% ) , o total de terras de propriedade árabe passaria para 6,8 %. Segundo as leis agrárias britânicas e turcas as pastagens beduínas e as terras desertificadas não podiam ser legalmente adquiridas.

62,8% --> propriedade do Estado

Outra fonte importante que confirma os dados acima (com alguma variação dos percentuais) vêm de um artigo do site MidEastWeb. Este site possui uma visão balanceada dos fatos, visões e notícias do Oriente Médio. Segundo ele (tradução minha em português, negrito meu): "Uma comissão de inquérito anglo-americana em 1945 e 1946 examinou o status da Palestina. Nenhum censo oficial estava disponível, já que nenhum censo foi conduzido na Palestina em 1940, portanto seus dados foram baseados em extrapolações e suposições. De acordo com o relatório, no final de 1946, em torno de 1.220.000 árabes e 608.000 judeus residiam nas fronteiras da Palestina do Mandato britânico. Os judeus compraram de 6 a 8 por cento da área total da Palestina. Este total correspondia a 20% da terra que poderia ser cultivada e residida. Em torno de 46 por cento da terra estava registrada em nome de vilas árabes, árabes vivendo na Palestina ou proprietários não residentes na Palestina. E mais ou menos o mesmo percentual (em torno de 46 %) era terra do governo. Porém, muitas dessas terras árabes não eram de propriedade privada. Os árabes da Palestina receberam muitas de suas terras na forma de aluguel condicional desde que as cultivassem ou as usassem como propriedades comunais de vilas."

O texto original em inglês:
"An Anglo-American commission of inquiry in 1945 and 1946 examined the status of Palestine. No official census figures were available, as no census had been conducted in Palestine in 1940, so all their surmises and figures are based on extrapolations and surmises. According to the report, at the end of 1946, About 1,220,000 Arabs and 608,000 Jews resided within the borders of Mandate Palestine. Jews had purchased 6 to 8 percent of the total land area of Palestine. This was about 20% of the land that could be settled and cultivated. About 46% of the land was registered in the tax registers to Arab villages, to Arabs living on the land, or absentee owners, and about the same amount was government land. However, most of this land was not privately owned. The Arabs of Palestine had received much of their land in leases conditional upon cultivation or used land that was part of village commons."

E, para finalizar, uma fonte imparcial (aliás, nem sempre, pois a ONU costuma ser extremamente pró-palestinos e pró-árabes devido à força política e econômica do petróleo). Os dados foram obtidos do livro de Michael Fishbach, chamado "Records of Dispossession: Palestinian Refugee Property and The Arab-Israeli Conflict". De acordo com Fishbach, a UNCCP (United Nations Conciliation Comission for Palestine) fez uma detalhada pesquisa concluída no ano de 2000 acerca do escopo de terras de propriedade árabe em 1948 e chegou ao valor de 4.851.613,978 dunums (medida de área do período otomano e que corresponde a 1000 metros quadrados). Lembramos que, de acordo com Kenneth Stein no livro "The Land Question in Palestine", a área total da Palestina gira em torno de 26.300.000 de dununs. Podemos então confirmar, embasados nos dados das Nações Unidas, que os árabes em 1948 possuíam como propriedade um pouco menos de 20 por cento da área total da Palestina.

Portanto, fica claro que a grande maioria das terras da Palestina era de propriedade do Estado. É um mito a informação que aparece em muitos sites palestinos (vide um exemplo) declarando que mais de 90% das terras da Palestina pertenciam aos palestinos. É fácil notar como é possível mascarar os fatos olhando claramente para o mapa da página colocada no site palestino e que está reproduzido abaixo.


As terras judaicas são colocadas em uma cor e na outra cor é colocada a seguinte informação: "Palestinian and Publicy Owned Land", isto é, terras Palestinas e públicas. Juntar os dados das terras públicas com as terras árabes dá a impressão de que o plano de partição foi injusto, o que não é verdade.

É importante lembrar que o mandato da Palestina da Liga da Nações, dado ao Império Britânico e aprovado em julho de 1922, dava como tarefa aos britânicos os seguintes artigos cruciais:

"- ARTICLE 2. The Mandatory shall be responsible for placing the country under such political, administrative and economic conditions as will secure the establishment of the Jewish national home, as laid down in the preamble, and the development of self­governing institutions, and also for safeguarding the civil and religious rights of all the inhabitants of Palestine, irrespective of race and religion."

"- ARTICLE 6. The Administration of Palestine, while ensuring that the rights and position of other sections of the population are not prejudiced, shall facilitate Jewish immigration under suitable conditions and shall encourage, in co­operation with the Jewish agency referred to in Article 4, close settlement by Jews on the land, including State lands and waste lands not required for public purposes."

Portanto, o Mandato da Liga das Nações definia claramente o propósito de assentar a imigração judaica em terras públicas e improdutivas, bem como assegurar o estabelecimento de um Lar Nacional Judaico.

Esse site de exemplo palestino, portanto, busca levianamente distorcer os dados históricos levantados pelo comitê independente. Seu claro intuito é o de propagandear o mito de que as terras palestinas teriam sido roubadas pelos sionistas. Partes dessas propriedades do Estado, de acordo com a resolução da ONU, passaram do Poder Mandatário britânico para seu regime sucessor legal: Israel.

Analisando o mapa abaixo, pode-se ainda notar que grande parte dessas propriedades alocadas ao novo Estado Judeu estavam no deserto do Negev. Aproximadamente 60 % das terras do novo Estado judeu eram formadas por desertos enquanto o novo Estado Árabe recebeu a maior parte das terras cultiváveis.





Fontes pesquisadas:

Aumman, Moshe - "Land Ownership in Palestine, 1880-1948" in Michael Curtis, et al., The Palestinians, p. 29

Avneri, Arieh - The Claim of Dispossession, p. 252

Bard, Mitchell - Myths and Facts Online: Partition

Council of the League of Nations - The Palestine Mandate
Katz, Samuel - Battleground: Fact & Fantasy in Palestine, pp. 268-269

Fishbach, Michael - Records of Dispossession: Palestinian Refugee Property and The Arab-Israeli Conflict

Government of Palestine - A survey of Palestine: Prepared in December 1945 and January 1946 for the information of the Anglo-American committee of inquiry, p. 257

MidEastWeb - Population of Ottoman and Mandate Palestine - Statistical and Demographic Considerations

Safian, Alexander - Can Arabs Buy Land in Israel?

Safian, Alexander - Land, the Palestinian Authority, and Israel

Stein, Kenneth - The Land Question in Palestine, 1917-1939

Tilsen, Jon-Jay, Ottoman Land Registration Law as a Contributing Factor in the Israeli-Arab Conflict

United Nations A/35/643 - Letter dated 17 November 1980 from the Permanent Representative of Israel to the United Nations addressed to the Secretary-General